Escolha uma Página
12 anos sem anticoncepcional

12 anos sem anticoncepcional

Comecei com os hormônios bem jovem. A menstruação era irregular e os ovários tinham micropolicistos. Eu me lembro dos vários pontinhos pequeninos e brancos no meu primeiro ultrassom. O tratamento funcionou, a menstruação regulou e eu continuei tomando a medicação por conta da função contraceptiva.

Doses mais altas, doses mais baixas, uns davam dor de cabeça, outros exacerbavam a TPM. Testei vários. Mas me veio muito incômodo porque eu vivia esquecendo um, dois, às vezes três comprimidos. No momento de recomeçar uma nova cartela, sempre me perdia nas contas dos dias de pausa. A ginecologista sugeriu que eu experimentasse uma medicação de uso contínuo. De repente, sem a pausa, as chances de erro poderiam diminuir. Mas eu continuava, todos os meses, me esquecendo de tomar um, dois, às vezes três comprimidos da cartela.

“Uma hora isso pode dar problema”, pensei. Em 2006 decidi não mais colocar os hormônios no meu corpo e optar exclusivamente pelo uso da camisinha. Eu sempre usava, mesmo com a medicação. Mas sempre, nunca é sempre né? Sem a pílula, não tinha conversa, corpo mole, euforia ou tesão que pudessem impedir o uso dela. E ponto final.

Com o tempo, essa decisão me impulsionou a olhar melhor para o meu próprio ciclo. Eu não fazia ideia se eu era regular, se tinha cólicas fortes, como era a minha TPM, se espinhas iriam aparecer, se eu ganharia peso. Era meu corpo pilotando seu próprio útero, ovários e hormônios.

A tpm de fato começou a incomodar. Eu tinha a sensação de viver irritada, dando patada e colocava a culpa nessa fase. “Não é possível, você passa mais da metade do mês com tpm”, desconfiaram. Por questões de melhor comunicação e sobrevivência das relações, comecei a anotar o primeiro dia de cada menstruação. Mais ou menos, bem mais ou menos, eu poderia justificar ataques de fúria se tivesse o mínimo de clareza.

Mas era só isso que eu fazia até engravidar do meu filho. E depois da aventura de gerar uma vida, minha conexão com útero, ovários e vagina nunca mais foi a mesma, no bom sentido. Somos, eu e meu sistema reprodutor, uma coisa só. Chego a desconfiar que existe uma via de comunicação direta do meu útero. Quase ouço o que essa parte do corpo tem a dizer.

De lá pra cá foram 12 anos. Aos poucos fui me interessando, me aprofundando, conhecendo meios de anotar minhas percepções e, assim, encontrar padrões que se repetem em cada diferente fase do meu ciclo menstrual. Consigo, por exemplo, perceber que estou ovulando ao sentir uma dor como se tivesse um alfinete bem fininho no meu abdomen inferior. Com um pouquinho de sensibilidade dá para notar se é o ovário direito ou esquerdo que está em ação. Consigo também notar o período ovulatório pela maior lubrificação e às vezes percebo o muco como clara de ovo. e pela sensação de maior fluxo sanguíneo no local. Temperatura também é um sinal, mas eu nunca medi, e também nunca toquei o colo do útero nessa fase para ver se tem alguma diferença comparado a outras fases do ciclo.

Para ligar esse radar, eu passei da tabelinha normal para um aplicativo. É simples, visualmente fácil de reconhecer as fases do ciclo e está sempre à mão. Depois de instalar e desinstalar alguns, eu escolhi um que se chama Maia. Gosto da simplicidade e da maneira como mostra as previsões no calendário. Experimentei e gostei também do Clue, que é cheio de graça e foi bem recomendado. Além da tecnologia, testei a mandala lunar no ano passado. É uma espécie de agenda para anotarmos uma pancada de detalhes, com lápis de cor e tudo. É incrível o autoconhecimento a partir dela, mas é tanta coisa que abandonei. Sigo com as anotações no próprio aplicativo e num caderno normal. Nele eu desabafo reflexões sobre o ciclo menstrual e outros tantos processos de desenvolvimento. Viraria escândalo nas mãos de pessoas erradas.

Não me vejo novamente tomando anticoncepcional. Hormônios sintéticos são contraditórios e eu prefiro evitar qualquer tipo de polêmica na minha vida. Como toda escolha, tem prós e contra. Como faço para prevenir? Mesmo confiando no conhecimento e percepção que toda mulher atenta tem sobre seu ciclo, prefiro sempre a camisinha. Claro. É bom pra evitar bebês e garante uma pepeka livre de doenças.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.