Existe um significado na sua existência?

Existe um significado na sua existência?

Às vezes não te dá um nó no pensamento quando você para pra pensar na existência, no que fazer da sua vida? Quando eu era pequena eu me olhava no espelho e me perguntava: por que esse cabelo dessa cor, desse jeito, esses olhos, essa boca, esse braço, esses ossos? De quem são? Por que nasci assim e não assado? O que tem por trás desse corpo?

“Uma vida pequena é aquela que nega a vibração da própria existência”, li num livro do Mario Sérgio Cortella, filósofo pop da atualidade.

Aliás, descobri nessas buscas que no campo da filosofia existe um pensamento de que todo animal tem uma ação na natureza. Serve pra alguma coisa, claro. Mas, somente os seres humanos possuem ação transformadora consciente. Ou seja, nós sabemos por que fazemos algo. Ou pelo menos deveríamos saber, não é mesmo?

É essa a ideia que nos distingue de outros animais. Fazemos um esforço para existir e significar alguma coisa pro outro, tipo o namorado, a mãe, o pai, o filho. Um esforço pra ser alguém pro mundo. Se eu significo algo pra alguém, isso justifica a minha existência?

O gato é somente gato. Nós temos a consciência e a possibilidade de criarmos a nossa própria existência. Fazemos o que fazemos porque escolhemos fazer e porque aquilo nos trás algum resultado. Carinho, dinheiro, fama, satisfação pessoal, tranquilidade… No fim das contas, com tantas possibilidades, parece difícil viver somente de acordo com a natureza, seguindo fluxos, porque o tempo todo podemos construir a própria realidade e dar sentido à própria vida. Penso que a liberdade, tão sedutora e desejada, não seria a própria angústia?

Para Cortella, no livro “Porque fazemos o que fazemos”, o sentido da existência humana está exatamente nas escolhas de como iremos viver a nossa vida. O trabalho sim senhoras e senhores. Para exercermos uma ação transformadora, temos que trabalhar. O que se discute hoje é que podemos fazer isso apenas para mera sobrevivência, mas também podemos marcar presença no mundo.

Esses pensamentos já te cutucaram? Me conta e vamos respirar juntos.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Um ciclo de dentro para fora e de fora para dentro

Um ciclo de dentro para fora e de fora para dentro

Uma mulher ao longo da sua vida menstrua por volta de 400 a 450 vezes. São mais de 35 anos vivenciando ciclos que se repetem todos os meses. Com nossas avós, bisavós, tataravós e tantas mulheres antes de nós foi um pouco diferente. Minha avó teve 6 filhos e conheço histórias de mulheres que tiveram 10, 12, 14 filhos. Você deve conhecer alguma também. Praticamente emendando uma gravidez na outra, a mulher vivenciava uma quantidade menor de ciclos menstruais. Afinal, eram 9 meses gestando e depois mais alguns meses amamentando, até que o corpo voltasse a ser fértil e ela engravidasse novamente.

Para continuarmos essa conversa é bom definirmos:

Ciclo é o espaço de tempo durante o qual ocorre e se completa, com regularidade, um fenômeno ou um fato, ou uma sequência deles.

Também pode ser definido como uma série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste. No caso do ciclo menstrual, começa no primeiro dia da menstruação e termina no último dia antes da próxima menstruação. O produto físico que vemos desse ciclo é o sangue, a própria menstruação, mas dentro de nós acontecem uma quantidade muito significativa de modificações químicas, bioquímicas, físicas, mentais e comportamentais. É ou não é?

Minha avó, bisavó e muitas antepassadas tiveram seus corpos menos expostos aos efeitos dos hormônios que regulam o ciclo menstrual. Me parece então que, com a mudança de comportamento social e a mulher com mais controle sobre suas decisões e escolhas, o corpo feminino tem precisado se adaptar à exposição maior aos hormônios. Hoje escolhemos quando engravidar, temos projetos além do familiar. Dividimos atenção para cuidados pessoais, trabalho, amigos, viagens, estudos, autoconhecimento, mensagens intermináveis no whatsapp.

Um ciclo não diz mais respeito somente à procriação.

Não é só o que vem de dentro que afeta essa ciclicidade. O estilo de vida influencia, e muito, a regulação desses ciclos. É exatamente porque muitas de nós tem levado um modo de vida desgastante que eu, de verdade, não acredito que nossos incômodos com o ciclo menstrual sejam culpa só dos hormônios.

O que fazemos com o nosso corpo influencia no nosso sistema interno.

Não é nada fisiológico viver uma rotina maluca, desgastante, estressante, sentindo o peso da responsabilidade, comendo mal, estando cada vez mais afastada da natureza e mais próxima do celular, sobrevivendo às influências culturais, filhos, casa, trabalho. O meu corpo, o seu corpo, mulher, está fazendo o que pode. Se adaptando do jeito que dá e, muitas vezes, adoecendo silenciosamente. Nossas escolhas externas afetam a bioquímica interna. É sabido.

Não é sobre ser vítima da cultura, do capitalismo ou até do machismo. É sobre autocuidado. Ao invés de sermos passivas com relação à nossa saúde, deixando por conta apenas de diagnósticos médicos e resultados de exames, é sermos ativas, conhecendo, ouvindo e atendendo às necessidades do nosso corpo para termos – olha que simples – saúde!

É hora de nos tornarmos responsáveis pelo próprio cuidado. Escolher o cuidado de si como prática de vida, como descreveu Foucault.

“Nós causamos o nosso próprio sofrimento por ignorância”.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

A vergonha da primeira menstruação

A vergonha da primeira menstruação

Na primeira vez que eu menstruei eu senti vergonha. Eu tinha 11 anos, sabia muito pouco sobre o que era menstruar, mas o suficiente para desejar que este dia não chegasse. Eu não queria virar mocinha. Eu não queria essa responsabilidade. Diziam que a partir dali eu precisaria me comportar e tomar muito cuidado com os meninos. Os meninos. Eles, que já eram meus inimigos, se tornariam ainda mais ameaçadores?

Chamei minha mãe no banheiro. Contei o que estava acontecendo. Ela me mostrou como colocar o absorvente na calcinha e me deixou sozinha, respeitando minha privacidade. Pelo menos naquele momento. Do banheiro fui direto para o quarto, com a intenção de dali nunca mais sair. No caminho, meu pai, com um sorriso no rosto, me olhou me parabenizando por aquele momento. Para eles era motivo de comemoração. Para mim, era vergonha.

Fico pensando em tantas meninas e mulheres que, assim como eu, começam essa fase tão natural e poderosa de suas vidas sentindo vergonha ou até mesmo medo. Daquilo que temos vergonha queremos fugir e nos esconder. E a vergonha carrega com ela a vulnerabilidade. Eu penso que é exatamente o oposto de vulnerável que deveríamos nos sentir nesse momento. A menarca é o início da natureza feminina se manifestando no corpo. A fertilidade, a iniciação de uma trajetória de evolução e maturação. Somos cíclicas, somos férteis e a cada mês temos a possibilidade de criar qualquer coisa, de forma intensa e profunda. Isso não deveria ser motivo de vergonha.

Dali em diante eu teria, todos os meses, a oportunidade de me conhecer melhor, buscar a conexão com aquilo que faz sentido e me liberar daquilo não faz sentido para mim. Mas não foi assim que aprendi e nem assim que vivenciei. Cólicas, sangue sujando o lençol, inchaço, irregularidade, mau humor. Era isso que eu esperava sobre a menstruação. Já nem sei dizer se eu mesma tinha essa percepção ou se foi algo que aprendi ouvindo as mulheres que me cercavam. Chego a questionar se os sintomas de fato existiam ao ponto de me incomodar ou se era isso que eu achava que deveria ser.

Menstruar é fisiológico e não patológico. Para que um ciclo funcione sem trazer dor, sem sofrimento, é preciso que consciência e aceitação estejam presentes na própria natureza. As alterações no ritmo, o excesso ou ausência na quantidade de sangue, o excesso de cólica ou qualquer outra dor decorrente do ciclo menstrual, são sinais de um corpo em desarmonia. Alimentação desequilibrada, sono perturbado, pressão emocional, pressão no trabalho, preocupações com dinheiro, falta de afeto, relações de abuso, uso de medicamentos e hormônios… existem muitos, muitos, fatores que podem influenciar na forma como vivemos cada ciclo. Você sabe disso. E sabe também que cada corpo tem necessidades específicas. Podemos descobrir o que o nosso próprio corpo está querendo nos dizer. É preciso estar atenta para perceber, sentir e ouvir, e é preciso disponibilidade de dar ao corpo exatamente o que ele precisa para funcionar de maneira fisiologicamente equilibrada.

Se houver dor em excesso, sangramento em excesso, irregularidade no ciclo, investigue sim possíveis causas orgânicas com a sua ginecologista. Qualquer disfunção diagnosticada precisa ser tratada, mas independente disso, toda vez que o seu ciclo te trouxer incômodo, se pergunte: o que falta a esse corpo para que ele se sinta bem? Para que me sinta bem, para que eu esteja feliz com minha própria fisiologia?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Você pode controlar o comportamento, mas não o sentimento

Você pode controlar o comportamento, mas não o sentimento

Na última semana meu filho de 5 anos me mordeu na barriga. Mordeu forte. Ele estava com muita raiva porque eu não deixei que dormisse na casa dos primos.

Às vezes eu também sinto vontade de morder as pessoas. Ou de repente puxar os cabelos, enfiar o dedo no olho. Mas eu não posso, porque me ensinaram que eu devo controlar as minhas emoções e manifestar a raiva é coisa de gente descontrolada.

Controlar as emoções?

Ultimamente tenho pensado muito sobre jeitos de lidar, expressar e manifestar a emoção, especialmente a raiva. Dar espaço pro corpo fazer o que precisa fazer para liberar sentimento, sem invadir o espaço do outro, sem encostar no corpo do outro, blindando qualquer pessoa dessa manifestação, que é só de quem sente a raiva.

Ser gentil, educada, procurar as palavras certas, usar de métodos pra uma comunicação mais empática, oferecer um pedaço do chocolate, buscar água, responder o whatsapp o mais rápido possível, perguntar se estão precisando de alguma coisa, abaixar a tampa do vaso, levantar a tampa do vaso, mandar mensagem de parabéns no dia do aniversário, oferecer um café pra visita em casa.

Todo mundo espera um comportamento específico.

Eu ando tão cansada de regras de boa educação que me senti incomodada por não saber ensinar o meu filho a lidar com a emoção sem necessariamente reprimir. Eu mesma não sei fazer isso. Consigo contar nos dedos quantas vezes na vida eu deixei a raiva se manifestar. Se eu pudesse diria: “É isso aí filho, coloca essa raiva pra fora, grita mesmo, esperneia mesmo, não precisa esconder o que você está sentindo. Mas mantenha suas mãos e seus dentes longe do meu corpo porque não podemos sair por aí mordendo e nem arrancando o cabelo de ninguém.”

“Conseguimos controlar o comportamento, mas não o sentimento”.

Como é que faz pra ensinar a dar espaço pra raiva e pra frustração sem invadir o espaço do outro? Sério, na prática, como faz? Reconhecer que existe raiva já é um grande desafio, porque é um sentimento feio e, assim como a tristeza, queremos esconder. Precisamos estar felizes sempre. Tristes e com raiva, nunca. Ou pelo menos não devemos falar que estamos porque incomoda. Reconhecer que ela existe, fazer silêncio e meditar, funcionam muito, mas não combina com a raiva. Raiva combina com grito, descontrole, esperneios e boca amarga. Quantas vezes consegui fazer isso na vida depois de gente grande?

“Quando você controla o sentimento, começa a interferir no corpo e desencadeia comportamentos neuróticos.”

Teve uma manhã que, no espaço de um segundo, em forma de áudios no whatsapp, eu senti a raiva chegando. “Aqui está você, quero te ouvir, dona Raiva”. Eu gritei o mais alto que pude. Disse tudo que de fato se passava no meu pensamento, sem filtros, dei socos no voltante do carro, gritei mais um pouco, áudio atrás de áudio, meu comportamento demonstrava raiva.

Apesar da aparência, eu sentia que estava no controle. Tinha uma observadora dentro de mim mesma que sabia exatamente que era apenas um pouco de espaço para a emoção. Enquanto parte de mim gritava todos os palavrões que eu conhecia, outra parte pensava: “Puxa, que lindo! Estou manifestando a raiva. Veja como a respiração está forte, como o coração bate mais rápido e feito um tambor, como o rosto está quente e vermelho, percebe o leve formigamento no corpo por conta do sangue que circula mais rápido, os músculos tensos e rígidos. Deixa vir.”

Eu deixei, durou menos que 20 minutos, foi libertador e um exercício de aceitação da minha humanidade.

A raiva, assim como o amor, deixa marcas na nossa alma. No mesmo dia que ele me mordeu, durante o banho, meu filho perguntou o que era a marca roxeada perto do meu umbigo e sentiu vergonha. No dia seguinte desenhou uma mulher com um buraco na barriga e do outro lado um menino monstro mau correndo atrás dela. Estamos marcados com esse episódio e não paro de refletir sobre como aprender, para depois ensinar, um jeito civilizado e não reprimido de manifestar a raiva.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Quando o corpo ovula é abundância

Quando o corpo ovula é abundância

Na noite do último domingo eu dancei. Dancei como se fosse a última noite. Era Elba Ramalho no palco. Show para poucas pessoas no lugar que mais gosto de dançar aqui onde eu moro. A luz, o som, o calor, a alegria que vinha de dentro. Tinha uma atmosfera que fazia meu olho brilhar. Meu corpo era como amor em excitação.

Logo na primeira música, eu senti que meu desejo era brincar, soltar, me deixar levar. Não importava se o passo estava certo, se a roupa estava torta, se o cabelo estava despenteado. Eu queria bagunçar, rir com o outro, provocar alegria. Meu corpo era criança querendo se divertir.

Eu pulsava vida, aberta para a conexão com cada um que me convidava para a dança. De corpo inteiro me entreguei. Me reconhecia mulher, me sentia linda, meu corpo era como água querendo fluir.

E dancei, no ritmo do som da zabumba, olhando nos olhos de quem me conduzia, sorrindo enquanto me aventurava em cada rodopio, com minha própria permissão para que eu manifestasse a felicidade. Eu mereço. Nós merecemos.

Quando o corpo ovula é abundância que vibra por dentro e se expressa fora de nós. Tenho a sensação que os aspectos positivos da minha personalidade transbordam. Me sinto mais criativa, intuitiva, esperta, produtiva, mais disposta a ouvir e me conectar com o outro. Saio do mundo interior e me exponho, sem vergonha, ao mundo exterior.

Essa fase do ciclo menstrual, numa visão holística, pode ser comparada à lua cheia, que movimenta as águas e desperta a fluidez, a entrega, a adaptabilidade, a transparência. Sim, me sinto água enquanto danço e sinto, muito forte, a energia da feminilidade e da fertilidade a partir da vontade de conexão e intimidade com o outro.

Quando chego em casa me deito, fecho os olhos e sinto o sangue fluir, a respiração acalmar. Desejo que mais momentos como esses aconteçam e que eu esteja cada vez mais desperta para, de fato, perceber e não deixar passar nenhuma pequena gota de felicidade que brotar em mim.

Se não estamos atentas, como poderemos reconhecer estados de plenitude? É preciso desfrutar.

*Nesse dia eu me esqueci de pedir para alguém fazer uma foto de um dos meus rodopios. Mas encontrei essa no meu celular que, apesar de não me lembrar da data, imagino que eu também estivesse ovulando.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.