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A vergonha da primeira menstruação

A vergonha da primeira menstruação

Na primeira vez que eu menstruei eu senti vergonha. Eu tinha 11 anos, sabia muito pouco sobre o que era menstruar, mas o suficiente para desejar que este dia não chegasse. Eu não queria virar mocinha. Eu não queria essa responsabilidade. Diziam que a partir dali eu precisaria me comportar e tomar muito cuidado com os meninos. Os meninos. Eles, que já eram meus inimigos, se tornariam ainda mais ameaçadores?

Chamei minha mãe no banheiro. Contei o que estava acontecendo. Ela me mostrou como colocar o absorvente na calcinha e me deixou sozinha, respeitando minha privacidade. Pelo menos naquele momento. Do banheiro fui direto para o quarto, com a intenção de dali nunca mais sair. No caminho, meu pai, com um sorriso no rosto, me olhou me parabenizando por aquele momento. Para eles era motivo de comemoração. Para mim, era vergonha.

Fico pensando em tantas meninas e mulheres que, assim como eu, começam essa fase tão natural e poderosa de suas vidas sentindo vergonha ou até mesmo medo. Daquilo que temos vergonha queremos fugir e nos esconder. E a vergonha carrega com ela a vulnerabilidade. Eu penso que é exatamente o oposto de vulnerável que deveríamos nos sentir nesse momento. A menarca é o início da natureza feminina se manifestando no corpo. A fertilidade, a iniciação de uma trajetória de evolução e maturação. Somos cíclicas, somos férteis e a cada mês temos a possibilidade de criar qualquer coisa, de forma intensa e profunda. Isso não deveria ser motivo de vergonha.

Dali em diante eu teria, todos os meses, a oportunidade de me conhecer melhor, buscar a conexão com aquilo que faz sentido e me liberar daquilo não faz sentido para mim. Mas não foi assim que aprendi e nem assim que vivenciei. Cólicas, sangue sujando o lençol, inchaço, irregularidade, mau humor. Era isso que eu esperava sobre a menstruação. Já nem sei dizer se eu mesma tinha essa percepção ou se foi algo que aprendi ouvindo as mulheres que me cercavam. Chego a questionar se os sintomas de fato existiam ao ponto de me incomodar ou se era isso que eu achava que deveria ser.

Menstruar é fisiológico e não patológico. Para que um ciclo funcione sem trazer dor, sem sofrimento, é preciso que consciência e aceitação estejam presentes na própria natureza. As alterações no ritmo, o excesso ou ausência na quantidade de sangue, o excesso de cólica ou qualquer outra dor decorrente do ciclo menstrual, são sinais de um corpo em desarmonia. Alimentação desequilibrada, sono perturbado, pressão emocional, pressão no trabalho, preocupações com dinheiro, falta de afeto, relações de abuso, uso de medicamentos e hormônios… existem muitos, muitos, fatores que podem influenciar na forma como vivemos cada ciclo. Você sabe disso. E sabe também que cada corpo tem necessidades específicas. Podemos descobrir o que o nosso próprio corpo está querendo nos dizer. É preciso estar atenta para perceber, sentir e ouvir, e é preciso disponibilidade de dar ao corpo exatamente o que ele precisa para funcionar de maneira fisiologicamente equilibrada.

Se houver dor em excesso, sangramento em excesso, irregularidade no ciclo, investigue sim possíveis causas orgânicas com a sua ginecologista. Qualquer disfunção diagnosticada precisa ser tratada, mas independente disso, toda vez que o seu ciclo te trouxer incômodo, se pergunte: o que falta a esse corpo para que ele se sinta bem? Para que me sinta bem, para que eu esteja feliz com minha própria fisiologia?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Você pode controlar o comportamento, mas não o sentimento

Você pode controlar o comportamento, mas não o sentimento

Na última semana meu filho de 5 anos me mordeu na barriga. Mordeu forte. Ele estava com muita raiva porque eu não deixei que dormisse na casa dos primos.

Às vezes eu também sinto vontade de morder as pessoas. Ou de repente puxar os cabelos, enfiar o dedo no olho. Mas eu não posso, porque me ensinaram que eu devo controlar as minhas emoções e manifestar a raiva é coisa de gente descontrolada.

Controlar as emoções?

Ultimamente tenho pensado muito sobre jeitos de lidar, expressar e manifestar a emoção, especialmente a raiva. Dar espaço pro corpo fazer o que precisa fazer para liberar sentimento, sem invadir o espaço do outro, sem encostar no corpo do outro, blindando qualquer pessoa dessa manifestação, que é só de quem sente a raiva.

Ser gentil, educada, procurar as palavras certas, usar de métodos pra uma comunicação mais empática, oferecer um pedaço do chocolate, buscar água, responder o whatsapp o mais rápido possível, perguntar se estão precisando de alguma coisa, abaixar a tampa do vaso, levantar a tampa do vaso, mandar mensagem de parabéns no dia do aniversário, oferecer um café pra visita em casa.

Todo mundo espera um comportamento específico.

Eu ando tão cansada de regras de boa educação que me senti incomodada por não saber ensinar o meu filho a lidar com a emoção sem necessariamente reprimir. Eu mesma não sei fazer isso. Consigo contar nos dedos quantas vezes na vida eu deixei a raiva se manifestar. Se eu pudesse diria: “É isso aí filho, coloca essa raiva pra fora, grita mesmo, esperneia mesmo, não precisa esconder o que você está sentindo. Mas mantenha suas mãos e seus dentes longe do meu corpo porque não podemos sair por aí mordendo e nem arrancando o cabelo de ninguém.”

“Conseguimos controlar o comportamento, mas não o sentimento”.

Como é que faz pra ensinar a dar espaço pra raiva e pra frustração sem invadir o espaço do outro? Sério, na prática, como faz? Reconhecer que existe raiva já é um grande desafio, porque é um sentimento feio e, assim como a tristeza, queremos esconder. Precisamos estar felizes sempre. Tristes e com raiva, nunca. Ou pelo menos não devemos falar que estamos porque incomoda. Reconhecer que ela existe, fazer silêncio e meditar, funcionam muito, mas não combina com a raiva. Raiva combina com grito, descontrole, esperneios e boca amarga. Quantas vezes consegui fazer isso na vida depois de gente grande?

“Quando você controla o sentimento, começa a interferir no corpo e desencadeia comportamentos neuróticos.”

Teve uma manhã que, no espaço de um segundo, em forma de áudios no whatsapp, eu senti a raiva chegando. “Aqui está você, quero te ouvir, dona Raiva”. Eu gritei o mais alto que pude. Disse tudo que de fato se passava no meu pensamento, sem filtros, dei socos no voltante do carro, gritei mais um pouco, áudio atrás de áudio, meu comportamento demonstrava raiva.

Apesar da aparência, eu sentia que estava no controle. Tinha uma observadora dentro de mim mesma que sabia exatamente que era apenas um pouco de espaço para a emoção. Enquanto parte de mim gritava todos os palavrões que eu conhecia, outra parte pensava: “Puxa, que lindo! Estou manifestando a raiva. Veja como a respiração está forte, como o coração bate mais rápido e feito um tambor, como o rosto está quente e vermelho, percebe o leve formigamento no corpo por conta do sangue que circula mais rápido, os músculos tensos e rígidos. Deixa vir.”

Eu deixei, durou menos que 20 minutos, foi libertador e um exercício de aceitação da minha humanidade.

A raiva, assim como o amor, deixa marcas na nossa alma. No mesmo dia que ele me mordeu, durante o banho, meu filho perguntou o que era a marca roxeada perto do meu umbigo e sentiu vergonha. No dia seguinte desenhou uma mulher com um buraco na barriga e do outro lado um menino monstro mau correndo atrás dela. Estamos marcados com esse episódio e não paro de refletir sobre como aprender, para depois ensinar, um jeito civilizado e não reprimido de manifestar a raiva.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Quando o corpo ovula é abundância

Quando o corpo ovula é abundância

Na noite do último domingo eu dancei. Dancei como se fosse a última noite. Era Elba Ramalho no palco. Show para poucas pessoas no lugar que mais gosto de dançar aqui onde eu moro. A luz, o som, o calor, a alegria que vinha de dentro. Tinha uma atmosfera que fazia meu olho brilhar. Meu corpo era como amor em excitação.

Logo na primeira música, eu senti que meu desejo era brincar, soltar, me deixar levar. Não importava se o passo estava certo, se a roupa estava torta, se o cabelo estava despenteado. Eu queria bagunçar, rir com o outro, provocar alegria. Meu corpo era criança querendo se divertir.

Eu pulsava vida, aberta para a conexão com cada um que me convidava para a dança. De corpo inteiro me entreguei. Me reconhecia mulher, me sentia linda, meu corpo era como água querendo fluir.

E dancei, no ritmo do som da zabumba, olhando nos olhos de quem me conduzia, sorrindo enquanto me aventurava em cada rodopio, com minha própria permissão para que eu manifestasse a felicidade. Eu mereço. Nós merecemos.

Quando o corpo ovula é abundância que vibra por dentro e se expressa fora de nós. Tenho a sensação que os aspectos positivos da minha personalidade transbordam. Me sinto mais criativa, intuitiva, esperta, produtiva, mais disposta a ouvir e me conectar com o outro. Saio do mundo interior e me exponho, sem vergonha, ao mundo exterior.

Essa fase do ciclo menstrual, numa visão holística, pode ser comparada à lua cheia, que movimenta as águas e desperta a fluidez, a entrega, a adaptabilidade, a transparência. Sim, me sinto água enquanto danço e sinto, muito forte, a energia da feminilidade e da fertilidade a partir da vontade de conexão e intimidade com o outro.

Quando chego em casa me deito, fecho os olhos e sinto o sangue fluir, a respiração acalmar. Desejo que mais momentos como esses aconteçam e que eu esteja cada vez mais desperta para, de fato, perceber e não deixar passar nenhuma pequena gota de felicidade que brotar em mim.

Se não estamos atentas, como poderemos reconhecer estados de plenitude? É preciso desfrutar.

*Nesse dia eu me esqueci de pedir para alguém fazer uma foto de um dos meus rodopios. Mas encontrei essa no meu celular que, apesar de não me lembrar da data, imagino que eu também estivesse ovulando.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Perceber o corpo é sair do modo automático

Perceber o corpo é sair do modo automático

O corpo diz muito. Quanto menos o escutamos, mais desconforto sentimos, tanto no físico quanto no emocional. Para que nosso comportamento seja diferente, trazendo o resultado que desejamos, é preciso conhecer, perceber, saber ouvir. Afinal, como podemos mudar aquilo que nem sequer reconhecemos?

Nessa fase do meu ciclo, a fase pré-menstrual, tenho pensando muito sobre como agir diante da irritação, da falta de paciência, da raiva.

O contrário tem validade? Se estamos atentos ao corpo, agindo com responsabilidade, respeitando suas necessidades, geramos conforto, produzimos melhor, fluímos mais?

Perceber o corpo é fundamental para sair do modo automático e colher aquilo que semeamos. Por exemplo, quando não percebo a raiva e não tomo atitudes saudáveis perante ela, meu corpo reage liberando hormônios, os músculos se tensionam, o coração acelera junto com a respiração, tenho vontade esbravejar, socar, me movimentar de forma agressiva, gritar. Sinal de alerta e de auto proteção?

Tudo ok com a raiva, ela é necessária. Mas é preciso lidar com as consequências. E, sabe, tenho notado um certo padrão quando eu mesma ou pessoas com quem convivo vibram na agressividade. Parece que trava e vem junto julgamento, medo, vergonha, insegurança, solidão. Enquanto cultivo essa emoção parece que a vida não flui. Está além daquilo que meus únicos 5 sentidos conseguem reconhecer, mas sinto que, sim, recebemos exatamente aquilo que manifestamos.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Minha doença não me define

Minha doença não me define

Confusa. Acordo e sinto aquele vazio no estômago que costuma anunciar a chegada do meu refluxo. Sinto medo dessa sensação. Nas últimas vezes que veio me vi no meio de tantos pensamentos negativos que, literalmente, paralisei. No meio da biblioteca, junto com meu filho, meu corpo era só vontade ir embora, chegar em casa depressa, me enfiar debaixo de um edredom quentinho e dormir o tempo que fosse preciso para tudo passar.

Acordar com essa sensação no estômago me deixa apreensiva. Eu conheço o que vem dela. Ela já esteve aqui tantas outras vezes e traz dias pouco produtivos, com humor sensível e instável, apatia e desprezo até mesmo um bolo de cenoura quentinho com cobertura de chocolate.

Estou confusa sobre o que devo fazer. Demoro para levantar da cama porque, antes mesmo de colocar o meu corpo de pé, quero entender o que fazer. Quando é que devo dar espaço para a emoção e pensamentos sombrios para ressignificar medo e memórias? E quando devo buscar refúgio naquilo que muda a minha frequência, tentar ficar bem, pensar positivo? Doenças crônicas podem influenciar a sensação de felicidade? Sim, estou na fase pré-menstrual.

“Ok, refluxo. Estou te vendo”.

O estômago eu sinto oco, o nó na garganta chega a influenciar os ouvidos trazendo pressão para dentro deles, e a parte final do esôfago até a minha garganta começam a queimar. Melhor evitar café, fritura, molho de tomate, cerveja e chocolate em excesso. Tem sido assim nos últimos meses. E é só minha a responsabilidade de fazer.

Ainda estou confusa, mas quero que seja diferente. A última vez que o refluxo veio me trouxe colapso. Decido que dessa vez não quero que seja assim. Descubro que, além de tomar as medidas alimentares e medicamentosas, talvez seja preciso aprender a lidar com a doença. E se fosse algo ainda mais grave?

Eu aceito. O refluxo existe. Ele me mostra os pensamentos mais perturbadores. Mas eu não sou o refluxo. Ele não me define.
Eu aceito. Esses pensamentos perturbadores fazem parte de mim agora. Mas eu não sou esses pensamentos. Eles não me formam.

Passo um dia mais quieta, mas não estou mais confusa. O que preciso fazer é seguir. Em paz com o refluxo que me acompanha em cada uma das atividades que me proponho a fazer neste dia.

No dia seguinte o refluxo ainda não desapareceu. Eu aceito essa condição momentânea do meu corpo e me responsabilizo pelo meu próprio cuidado para que o refluxo se manifeste cada vez menos até desaparecer.

A doença segue comigo, vamos juntos, em movimento, fazendo aquilo que me propus a fazer, em mais um dia perfeitamente comum: meditação, terapia, reunião, outra reunião, atendimento, evento… Até que, quando paro para sentir o corpo, não vejo o refluxo. Foi ele que desapareceu ou fui eu que deixei de perceber? Eu não sou o refluxo. Ele não me define.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.