Por trás da realização, a visão de futuro

Por trás da realização, a visão de futuro

Sentar para escrever esse texto faz parte de uma lista de tarefas que eu mesma estabeleci. Meta do dia: escrever sobre procrastinação.

Olho a mensagem no whatsapp, confiro as respostas da enquete que publiquei no stories do Instagram, levanto e pego mais um café, dou outra mordida num bolinho estranho que parecia pão de mel, mas é Nutella no recheio (não que isso seja ruim).

Me pergunto se conseguirei chegar ao fim do dia com a meta cumprida.

 

O que está por trás desse comportamento procrastinador?

 

Uma meta-análise (um tipo de análise científica que compara resultados de várias outras pesquisas sobre um mesmo tema), publicada em julho de 2019 na revista WIREs Cognitive Science, levantou quais são os principais mecanismos que levam as pessoas a procrastinar. Fazer agora ou deixar para depois?¹ Por motivos óbvios, o título da pesquisa me despertou curiosidade e tem muito dela baseando o conteúdo e a prática do Realiza.

Quando penso em procrastinação faço uma correlação com a não realização. Se procrastino, tem algo não sendo realizado. E a gente tende a achar que procrastinar é adiar algo chato, algo que não gostamos de fazer. Mas tem aí também deixar para depois os projetos que mais importam a nós. Procrastinação de longo prazo é o nome que se dá aos sonhos e deias pessoais que ficam numa gaveta qualquer do nosso coração.

No campo científico

Procrastinação se define como um atraso voluntário, mas irracional, do curso pretendido das ações

Isso significa que no fundo a gente sabe que está enrolando, é de fato ação voluntária. Mas tem algo irracional operando e influenciando as nossas escolhas. Como em tudo, caso você não saiba, nossa atitude se baseia mais significativamente no que está no nosso inconsciente.

Conhecer o que está por trás do nosso comportamento, estabelecer planos e metas e fortalecer a motivação a partir da visão de futuro, é o que tenho observado, em mim e em meus alunos, funcionar quase como antídotos para a realização. Mas confesso que tem em mim uma dualidade nesse sentido. Porque se estabeleço uma meta que não cumpro, naturalmente fica uma sensação de incapacidade e de percepção negativa sobre mim mesma: “Ah lá, não fiz de novo. Não presto, sou incapaz, nunca vou conseguir”. Se não estivermos atentas a esses pensamentos, somos carregados por eles.

 

Quantas vezes você deixou de planejar ou de estabelecer prazos e metas com medo de não conseguir cumprir seus próprios planos?

 

Tudo aquilo que planejamos fazer e não fazemos, pode deixar um residual de descontentamento. E existem estratégias para lidar com essas emoções. Ao mesmo tempo se não houver um plano, corremos o risco de deixar ao nosso irracional as rédeas das nossas decisões. E vale aqui a informação de que esse lado é cheio de medos, cheio de exemplos que nos convencem de que não devemos fazer e, além de tudo, pensa em viver a vida no menor esforço possível, na diversão e na zona de conforto, sempre que possível.

Não planejar, não pensar no futuro, pode nos colocar num local de mínimo esforço, no modo “deixa a vida me levar” ou apagando incêndios, cumprindo uma agenda que não fomos nós que desenhamos. É possível planejar com leveza, deixando de lado uma autocobrança exagerada e se divertir no processo?

Dividida entre mais um café e a busca pela sensação de ver esse texto finalizado, escolho continuar.

 

Uma combinação de fatores influenciando nossa decisão.

 

É impossível explicar a procrastinação completamente e sistematicamente com fatores isolados. Sempre existe uma combinação deles agindo no nosso processo de tomada de decisões sobre o que fazer ou o que não fazer, e vamos considerar nossas emoções (mais do que você imagina) ao escolher onde investir tempo.

A pesquisa que citei no início traz alguns desses fatores e, em primeiro lugar, um dos motivos mais óbvios da procrastinação: a aversão à tarefa. Não gosto, não faço. E aqui damos de cara com nossa parte infantil e birrenta que pensa que a vida é só alegria e momentos de extrema satisfação. Burocracias, números, relatórios, supermercado, gavetas desarrumadas, costumam estar em listas de tarefas aversivas que ficam para depois.

O tempo é também um fator óbvio que influencia a procrastinação. Prazos apertados tem o poder de nos motivar loucamente e recompensas claras e óbvias também. Sim, nos motivamos por recompensas e, quanto mais perto ela estiver, mais acionamos a nossa capacidade de realização (talvez por isso meus planos a longo prazo nunca tenham dado certo).

 

Os incentivos podem nos motivar a agir.

 

Percebo isso todos os dias ao negociar a hora do banho com meu filho, de 7 anos, e me pergunto se é esse mesmo lado criança dentro de mim que continua buscando recompensa imediata, mesmo que seja somente um elogio.

Juntando os dois fatores que citei acima, uma das conclusões da pesquisa é que “A procrastinação ocorre quando os benefícios de evitar a aversão à tarefa superam os benefícios das recompensas tardias que a tarefa pode gerar.”

(Lê de novo).

Eu li assim:

 

A realização ocorre quando os benefícios futuros relacionados ao cumprimento de determinadas metas, superam a aversão à tarefa. 

 

Ou seja, às vezes você não gosta ou não está tão a fim de fazer algo, mesmo que seja algo prazeroso para você. Mas quando você tem em mente a motivação para dedicar seu tempo nessa tarefa, você ajusta o seu irracional na tomada de decisão, vai lá e faz. É você adulta no comando.

Isso vai exigir visão de futuro para que você entre no processo de realização e não seja arrastada pela procrastinação. Quando é o seu chefe que estabeleceu essa visão, basta cumprir o seu papel. Mas e quando o futuro é o seu? Quando o projeto é o seu? Quando a execução depende basicamente da sua visão e do seu comportamento?

Sim, mesmo com a vida louca e impermanente, mesmo sabendo que não temos controle do que vai acontecer amanhã, visualizar o futuro soma força na sua capacidade de realizar. E não basta visualizar uma única vez. Não basta escrever o propósito e deixar na gaveta. A vida segue. Damos de cara com acontecimentos inesperados. Mudamos de ideia. É preciso sustentar conscientemente a sua motivação, lembrar e relembrar do porque aquilo é importante para você. Dia após dia. Vai fazer enorme diferença na sua sensação de realização.

 

Nota confessional:

Não, eu não terminei esse texto no dia que o coloquei como meta. E tudo bem. Relaxa, mulher. Use o planejamento e as metas como seus aliados, não como inimigos.

Referência:

  1. Zhang S, Liu P, Feng T. To do it now or later: The cognitive mechanisms and neural substrates underlying procrastination.  2019 Jul (Fazer agora ou depois: os mecanismos cognitivos e substratos neurais por trás da procrastinação).

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz processos individuais e em grupos que despertam maior conhecimento sobre si mesmo, com diálogos sobre a mente, a percepção do corpo e do comportamento e que inclui o ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Não finja que não existe: relatos de uma tpm qualquer

Não finja que não existe: relatos de uma tpm qualquer

Quando percebi o primeiro pensamento de dúvida e crítica sobre ideias tão bacanas comecei a ficar atenta. Possivelmente outros como esse viriam, anunciando que a fase pré-menstrual estava chegando. Assim acontece comigo. De repente tudo aquilo que gosto e me faz vibrar se torna alvo de questionamentos internos.

Não, eu não gosto muito dessa mudança repentina na minha autoconfiança. Acho que ninguém gosta. A gente gosta de se sentir bem, bonita, produtiva, uma mulher phod@. Mas não é assim sempre. Ou é com você?

Tem gente que prefere colocar música animada, dizer afirmações positivas em frente ao espelho. É verdade que uma boa música até me levanta o semblante, como diria minha vó, mas essa coisa do espelho faz com que eu me sinta meio boba, meio fake. A menos que venha do coração. Porque senão, a quem estou tentando enganar?

Já eu, eu não. Não gosto de fingir que essa fase não existe. Já fiz isso e fiz estragos. Porque no fingir eu mascarava o sentimento, que às vezes é de tristeza, às vezes frustração, às vezes raiva, e quando via, já virava explosão. Putz, quantas falas agressivas podem sair de um corpo mascarado que esconde o que sente ou que nem sequer percebe a emoção…

Sei lá. A cada ciclo aprendo um pouco sobre como posso aproveitar esse momento. Já aprendi, por exemplo, que é na fase pré-menstrual que gosto de fazer os balanços. Porque no fundo, no fundo, sempre temos umas coisinhas que não servem mais nessa vida. E não estou falando de roupas. É nesse período que o que me incomoda fica ainda mais incômodo. Posso, então, olhar com cuidado. Eu faço isso ouvindo música de piano e com o caderno de escrita e desenho na mão. São rabiscos ótimos os que surgem!

Também tenho pensado em buscar ajuda. Pedir a companhia de alguém que saiba exatamente como respeitar meu momento e ao mesmo tempo me inspirar. Ficar sozinha tem sua medida nesses dias. E não dá pra ser alguém muito “frases de autoajuda” porque isso costuma me irritar profundamente. Existe coisa pior do que você estar de bode, se sentindo desmotivada e alguém dizer: “Não fica assim, você precisa se animar. Olha quanta coisa boa você tem na vida!”. Tá, tudo depende. Às vezes funciona.

Meu namorado hoje me perguntou, com carinho, se podia colocar a mão no meu ombro enquanto caminhávamos no shopping em busca daquela única agenda que eu queria comprar. Eu ri. Mas poderia ter ficado brava. TPM tem dessas insconstâncias desesperadoras. Felizmente, para mim e para ele, estou atenta. E que bom que encontramos exatamente a agenda que eu queria. Lidar com a frustração nesses dias costuma ser mais complexo. E que bom que ele me pagou aquele capuccino cheio de raspas chocolate, que ele insiste em tomar/comer feito sobremesa. Vai entender…

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz processos individuais e em grupos que despertam maior conhecimento sobre si mesmo, com diálogos sobre a mente, a percepção do corpo e do comportamento e que inclui o ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Agora vai ou é só o começo?

Agora vai ou é só o começo?

Eu estava destruída e nem tinha acontecido nada de muito grave comigo. A gente tem uma mania de achar que nossos dramas são os dramas mais dramáticos do mundo. Até falarmos sobre eles e poder vermos que todo mundo, em maior ou menor grau, já passou, ou está passando, por questões parecidas.

 

Um relacionamento tóxico e abusivo, a sensação de não ser boa o suficiente em nada, a descrença na própria capacidade de construir algo foda, o dinheiro que nunca sobra, a dificuldade em encontrar satisfação na vida profissional. Eu sabia que não eram questões exclusivas do meu ser. Mas, naquele momento, o conjunto desses fatores tão comuns me impactou e movimentou uma energia de ação capaz de provocar um furacão, no bom sentido, felizmente.

 

É a tal da gota d’água: CHEGA! Quando acontece, do dia para a noite, começamos a dar um basta em todos os padrões lixos que estamos vivendo repetidas vezes, no modo automático, e que nos trazem a ideia de que não merecemos, de que somos insignificantes, de que não conseguimos nada.

 

PARA MUDAR, EU DECIDI DEIXAR DE LADO AS ILUSÕES E IDEALIZAÇÕES

 

O cansaço me levou ao desejo de encontrar autonomia emocional, tranquilidade nos meus pensamentos, leveza nas minhas relações (todas elas). Eu estava decidida a intensificar o trabalho sujo e doloroso de autoconhecimento e mergulho nas minhas sombras. Quero ver a realidade como ela é. Sim, eu quero ver.

 

Comecei uma jornada em busca de amor próprio, com a vontade de ficar em paz em minha própria companhia, sem depender de nada, nem de ninguém, nem de nenhum fator externo. Autorresponsabilidade. Recomendo.

 

Mas me diz, como é que se faz isso? Qual é o caminho que pode nos conectar com essa fonte de amor e aceitação por sermos quem somos? Eu tinha dois desafios pela frente: vencer a carência emocional e me liberar da necessidade de ser perfeita. E falando assim podem parecer tarefas simples, mas a superficialidade de frases motivacionais vazias não funcionam nesses casos. É preciso desbravar o desconhecido do que está por trás desses padrões.

 

EXISTE MUITO MAIS OPERANDO EM NÓS, MOLDANDO NOSSO COMPORTAMENTO, DO QUE O QUE NOSSO RACIONAL CONSEGUE IDENTIFICAR

 

Comecei por um retiro de conexão com o sagrado feminino, com a ferida do antigo relacionamento aberta, sangrando. Meu corpo estava em colapso. Febre, dor de garganta, sinusite, nem voz eu tinha para compartilhar minha dor. Foi no silêncio que comecei meu processo.

 

Ao longo da jornada pude curar minhas feridas de abusos e agressões, pude honrar minha linhagem feminina, pude reconhecer o universo em mim. Neste processo intensifiquei a meditação e voltei aos estudos sobre o budismo. E, claro, fiz silêncio, muito silêncio, observando minhas emoções, meu corpo, minha mente, meu ciclo menstrual. Tudo isso na vida como ela é, comigo mesma e todas as minhas demandas acontecendo.

 

Neste momento de solidão e isolamento, eu tive medo, senti o pânico – literalmente, deixei de ver o sentido na vida. Mas cada vez que dava de cara com meu lado mais sombrio, eu encarava de frente. Era o que eu poderia fazer ao invés de ignorar, como sempre tinha feito, fugindo daquilo que não era perfeito em mim. Muita coisa deixou de fazer sentido. Muitos assuntos deixaram de fazer parte das minhas conversas, meu corpo começou a gritar por hábitos mais saudáveis.

 

DA MEDO SER A PESSOA QUE NUNCA FOMOS

 

Não é fácil no começo. Mas é tudo muito rico, cheio de descobertas profundas. As mudanças acontecem por dentro e se manifestam fora. Muitas pessoas próximas podem estranhar a mudança e podemos até encontrar alguma dificuldade de deixar ir aquilo que não cabe mais. É como se eu estivéssemos perdendo a única identidade que sabemos que temos. Se eu não sou essa ilusão que construí para me defender, então quem sou? Era aquela pessoa de antes que eu reconhecia como sendo eu e, sem essa identidade, eu não fazia ideia de quem eu era, se seria aceita ou amada nesse novo formato de pensar, sentir, agir. 

 

A cada sombra que eu tomava consciência, eu via ao mesmo tempo o susto e a limpeza acontecendo. Na mesma proporção que me liberava da dor e do sofrimento, eu via as recompensas aparecendo muito rapidamente. Era como se logo depois de reconhecer o motivo pelo qual eu operava num padrão, ter clareza das crenças e dos medos que me bloqueavam, eu enfim estivesse pronta para viver plenamente cada aspecto da minha vida que estava sendo curado. E, então, o universo me trazia um presente.

 

EM CONTATO COM MINHA ESSÊNCIA, EU COMECEI A MANIFESTAR AS REALIDADES QUE DESEJAVA

 

Me mudei da casa dos meus pais, como num passe de mágica, numa oportunidade maravilhosa; conquistei autonomia financeira a partir de trabalho firme e constante, sempre atraindo os clientes certos no momento ideal; fui à praia 3 vezes no primeiro trimestre e fiz uma viagem internacional inesperada; deixei de sentir a necessidade do álcool para driblar a timidez, me tornar a engraçadona e ser aceita e admirada; encontrei um homem (ah que homem…) que possui muitas características que valorizo, me apaixonei por ele e vivencio uma relação saudável onde me sinto imensamente amada, me dando a certeza de que é um encontro de almas; e finalizo o ano retomando e começando trabalhos que movem meu coração com a certeza de que eles já deram certo, já estão abundantes para mim e para todas as pessoas que cruzarem o meu caminho. 

 

Termino o ano grata por todo o contexto de dor que vivi porque reconheço que, por causa da força de todos os meus incômodos, hoje sinto o amor transbordar cada vez mais nas diferentes áreas da minha vida. Tem momentos que até desacredito que tanta bondade possa acontecer, e é nesses momentos que me conecto com o todo, com a espiritualidade.

 

ESTOU PRONTA, MAS NÃO COM A ILUSÃO DE QUE AGORA VAI

 

É óbvio que, ao longo da vida que segue, vou dar de cara com medos antigos (e medos novos), vou passar por outras tantas oscilações hormonais que influenciam meus pensamentos e comportamentos, vou me frustrar comigo mesma e com minhas expectativas, vou me decepcionar e, muito provavelmente, enroscar, travar, surtar. Impermanente é o fluxo. Novos incômodos surgem, novos desafios também e isso é maravilhoso! Não faria sentido ser imutável no processo.

 

Começar um novo ano é só uma continuidade da reflexão que já vem sendo feita. A continuidade de um processo de expansão, que é constante, e um trabalho delicioso para a vida. Eu prefiro agora seguir construindo meus projetos assim, lidando com a realidade imperfeita do ser humano que sou, deixando de lado a ilusão de que já está tudo resolvido e com a clareza de que os meus dramas não são os dramas mais dramáticos do mundo.

 

Estamos todos juntos. Mergulhe!

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz processos individuais e em grupos que despertam maior conhecimento sobre si mesmo, com diálogos sobre a mente, a percepção do corpo e do comportamento e que inclui o ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Fio condutor: o que conecta seus conhecimentos?

Fio condutor: o que conecta seus conhecimentos?

Sobre transições de carreira e fios condutores.

Eu me formei em fisioterapia. Na época sentia uma curiosidade imensa por entender o que tem por trás do movimento. Músculos, ossos, nervos. De que forma nos empilhamos e nos mantemos de pé? O que faz com que eu me mova, dê um passo, um pulo ou um sorriso?

Meu corpo é humano. Conhecer como ele funciona, nos seus mais diferentes aspectos, sempre foi parte dos meus interesses apaixonados.

Mas não foi na fisioterapia, no modo convencional de entendê-la, que conquistei autonomia financeira e satisfação no trabalho. Foi ao lado de mulheres inquietas e em busca de sua autonomia profissional, financeira, emocional.

Ao conduzir uma rede de mulheres e manifestar minha liderança, aprimorar minha comunicação, desenvolver minha escrita e com isso conquistar confiança, por um tempo eu neguei e achei que estava deixando de lado todo conhecimento aprendido ao longo dos 11 anos em que atuei área da saúde com direcionamento inclusive para a parte acadêmica. Era como se uma habilidade não tivesse nada a ver com a outra e tudo aquilo que sou estivesse separado em caixas de conhecimento. E, não sei se você já fez alguma mudança na vida profissional, mas esse tipo de pensamento e de transição costuma ser acompanhado da sensação de traição, culpa e angústia.

Não precisa ser assim. A vida é como se fosse uma obra de arte, páginas que podem ser escritas da forma como desejamos. Podemos brincar mais, experimentar mais, sonhar mais e, a partir de autorresponsabilidade e amor, podemos arriscar mais. O que pode acontecer se vivermos com essa energia de curiosos?

Hoje, em meio à momentos de dúvidas, crenças e revoltas, eu consigo perceber: minha formação é meu coração, meu norte, minha missão. Tanto em rede com outras mulheres, quanto em equipes ou em sala de aula ensinando outros profissionais, conduzindo práticas corporais, o SER é meu interesse. Pessoas, suas histórias e como se movem a partir do que acontece é o que me interessa. A fisioterapia abriu caminho para que eu pudesse começar a explorar, mas foi deixando a fisioterapia que pude ir além e caminhar descobrindo tudo aquilo que move o ser humano. Quanto mais eu dou passos, mais percebo a amplitude do que é o corpo, do que faz com que cada um de nós se movimente em um sentido ou outro.

Transcende. Está além de músculos, ossos, nervos.

Talvez você se perceba se movimentando em direções que não são exatamente as que gostaria? Temos inconsciências que influenciam nossas atitudes e nos geram pensamentos e falas paralisantes: “Tenho medo de falar em público”, “Não consigo me controlar, sou muito agressiva com meu namorado”, “Ele me deixa pra baixo, mas não consigo sair desse relacionamento”, “Vivo procrastinando e não consigo ganhar dinheiro com meu trabalho”, “Não vou entrar em contato com essa pessoa, ele é ótimo profissional, nem vai dar atenção à minha ideia?”.

Movimentos não se desenrolam somente a partir de músculos, ossos, nervos.

O movimento inclui nossos medos e bloqueios, nossas experiências, nossa emoção, nossa história, nossa ancestralidade, nossa conexão com o todo, com a nossa alma. O movimento, não tenho dúvidas, inclui forças que nossos 5 sentidos não conseguem captar.

O movimento somos nós na nossa maior esfera. Como você se move? O que te move? O que conecta tudo aquilo que você já aprendeu ao longo da sua maravilhosa jornada de vida? Qual o fio condutor?

.

.

PS 1. A foto que ilustra esse post é de uma roda de negócios que conduzi pela de saia. Uma única roda onde reconheço que integrei meus conhecimentos e habilidades. Mais disso farei!

PS 2. Escrevo esse texto durante meu próprio processo de integração de tudo aquilo que aprendi e faz parte de quem eu sou.

Um trabalho de autoconhecimento e espiritualidade que tem me levado a realizar movimentos diferentes do que antes eu considerava o correto. Um trabalho de abertura e ressignificação de propósito e vida.

Um texto que antes eu não publicaria por saber que por trás dele tem uma caminhada de luz que antes eu diria namastê demais e sentiria vergonha em compartilhar. Meu momento é de transição, e nem sei se algum dia deixará de ser, minha base é a autonomia emocional e a autenticidade. Eu tenho medos e tenho também tranquilidades, certezas de que quanto mais eu mergulho na minha essência, mais sinto a plenitude.

E Namastê sim, com beijos de Gratiluz, porque tudo isso também faz parte do meu ser.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz processos individuais e em grupos que despertam maior conhecimento sobre si mesmo, com diálogos sobre a mente, a percepção do corpo e do comportamento e que inclui o ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Dance como se não tivesse ninguém olhando

Dance como se não tivesse ninguém olhando

Se existe algo que sinto prazer é prestar atenção no que acontece no ambiente em que estou. Cores, sons, pessoas e suas expressões, sabores, aromas. Meu olhar procura detalhes. Cada estímulo poderia ser poesia, poderia ser a cena de um filme, poderia ser a página de um livro.

Gosto especialmente de observar como o corpo se expressa. Gosto de ver um casal à mesa de um restaurante e ficar imaginando há quanto tempo eles se conhecem, se já possuem intimidade, se dormem juntos todas as noites, quais são os motivos das desavenças entre eles, se eles se permitem viver o amor.

Eu gosto de ver as manifestações do amor.

Outro dia, num restaurante japonês, desses que você encontra orientais comendo na mesa ao lado e presume ser um bom sinal sobre a qualidade da comida, um casal se sentou à minha frente. Ele, nitidamente querendo agradar. Ela, visivelmente encantada. Demorou um tempo até que ele decidisse em qual cadeira se sentar. Foi estranho. Me fez pensar que ele era gago ou que nunca tinha levado uma moça para jantar. Fiquei com a sensação que eles não tinham esse costume. Ela sorria, sem graça, meio tímida, desengonçada e desconfortável no vestido arrumado, que poderia ter sido emprestado da prima mais velha. Sua feição não era exatamente bela, mas estava iluminada pelo carinho que recebia dele.

“Talvez seja o primeiro ou o segundo encontro”, pensei. Ela tinha na postura o ar da conquista. Diria que seu lado mais autoconfiante estava presente. Olhos nos olhos, movimentos delicados, suaves, que seduzem com naturalidade. De repente, um beijo cheio de desejo, ali mesmo, na mesa em que estavam sentados. E, depois do beijo, a demonstração discreta da alegria: o rosto se abaixa, a mão esconde o sorriso, os olhos se fecham e depois se abrem procurando o olhar do outro.

Ela me lembrou uma outra moça que sempre vejo na aula de dança de sexta a tarde, que acontece no lugar onde, no mesmo horário, sempre peço um pedaço de bolo e um capuccino. Ela não tem ritmo. Seu corpo parecia dançar uma música imaginária muito diferente da que tocava no auto falante. Sem sentido, sem padrão, totalmente descompassado. Mesmo assim, ao ver um rapaz dançando sozinho, se aproximou. Ele a recebeu com um sorriso, ajeitando o cabelo encaracolado e bagunçado, segurou a mão dela e os dois se divertiram, como se ali não houvesse mais ninguém.

Isso também me fez lembrar o meu pai que, independente do ritmo que esteja tocando, parece sempre dançar uma valsa. Mas, meu pai não tem a coragem que essas moças tinham. E nem eu. Nos preocupamos demais com o que os outros estão pensando. Não sabemos gozar a vida como as moças desengonçadas. Preferimos muitas vezes ficar sentados, observando.

Na minha “poesia” percebo que elas tem algo em comum: a coragem de ser exatamente quem são, independente da aprovação de quem estiver olhando.

Assim sigo aprendendo a me libertar dos padrões e do que eu imagino que esperam que eu seja ou faça. Sinto, na minha vida, que quando vivencio momentos assim, eles vem do amor. O amor que posso sentir por mim mesma, o amor pela vida, o amor pelo amor!

Dançaremos como se não tivesse ninguém olhando?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz processos individuais e em grupos que despertam maior conhecimento sobre si mesmo, com diálogos sobre a mente, a percepção do corpo e do comportamento e que inclui o ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.