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As fases do ciclo menstrual

As fases do ciclo menstrual

O título daquela música não mente: eu sou mulher de fases (ou seria de faces?)

Somos todas cíclicas. O grande desafio é aceitar que esse é o nosso natural e jogar fora a imagem estereotipada da mulher surtada. Não sei, me parece que um bom começo seja conhecer o que acontece com o nosso próprio corpo. Conhecer mesmo, pelo menos o essencial, sobre a liberação dos hormônios nas diferentes fases do ciclo menstrual e o que eles provocam.

Nosso ciclo, mulher, do ponto de vista endócrino, hormonal, físico, é complexo. Não havia outro jeito das emoções se comportarem, senão igualmente de forma complexa.

Vamos com calma. Podemos dividir as fases do nosso ciclo sob diferentes pontos de vista. Dependendo de onde você olha vai encontrar uma explicação diferente. Claro, tudo acontece interligado, mas é olhando cada parte que podemos entender melhor como nosso corpo se comporta.

1.       Sob o ponto de vista dos ovários

 

Se considerarmos o que acontece nos nossos ovários, dividimos o ciclo em duas fases:

Fase folicular, tudo que vem antes da ovulação, e fase lútea tudo que acontece depois da ovulação.

O primeiro dia da menstruação é o primeiro dia do ciclo e marca o início da fase folicular, que deve se encerrar por volta do 13º ou 14º dia, quando você ovular.

Na fase folicular, o corpo feminino libera um hormônio chamado hormônio folículo estimulante. É uma glândula, conhecida como hipófise, que produz e libera esse hormônio. E o que ele faz? Ele estimula o folículo ovariano, ou seja, a formação de um monte de células contidas dentro o óvulo. Esse folículo cresce amadurecendo o óvulo e com isso o corpo começa a produzir um outro tipo de hormônio chamado estradiol (o estrogênio vem dele), que faz a parede que reveste o útero começar a se preparar para receber um possível embrião.

Quando o óvulo está formado e maduro o tal do folículo se rompe e o óvulo é liberado e direcionado às tubas uterinas com ajuda de fímbrias, que é como se fossem pequenos tentáculos. Isso vai acontecer praticamente na metade do seu ciclo marcando o início da fase lútea.

Você pode perceber que a ovulação está chegando porque a vagina produz um muco mais viscoso, que parece uma clara de ovo. A libido também costuma mudar quando chega a ovulação e muitas mulheres sentem também uma cólica bem pontual.

Com a ovulação o corpo começa a produzir a progesterona, que é o hormônio fundamental para manutenção da parede que reveste o útero para receber o embrião. Se o óvulo foi fecundado, ele se implanta no endométrio e começa a gestação. Se não há fecundação, não há embrião e, portanto, não há bebê. E é aí que o corpo deixa de produzir a progestrerona. É como um sinal para o nosso organismo: “Hey, não tem embrião. Pode deixar de sustentar essa parede do útero aí”.

E então, acontece a queda hormonal. Sem a progesterona e o estrogênio o endométrio não se sustenta. A parede do útero descama junto com sangue e começa então outro ciclo com a chegada da menstruação. A fase lútea dura 14 dias.

Sob o ponto de vista do útero

 

Uma coisa é o que acontece com os ovários: folículo amadurece, libera óvulo e pronto. É a essência da vida.

Mas nesse tempo, o que acontece com o útero?

Sob o ponto de vista do ciclo uterino, o ciclo menstrual é dividido em 4 fases (respira que tá tudo bem. Ao longo do processo você começa a sacar melhor):

2.1. Fase menstrual;

2.2. Fase pré-ovulatória (proliferativa ou estrogênica);

2.3. Fase ovulatória;

2.4. Fase pré menstrual (Secretora ou progestacional).

Acompanhe:

 

1. Fase menstrual

 

Estamos menstruando, certo? Estrogênio e progesterona estão em baixa. Significa que não houve fecundação, toda a preparação da parede do útero para receber o óvulo foi em vão e então. Com a queda da progesterona, o endométrio se descama junto com sangue. Por isso que existem alguns coágulos junto com o sangue e a cor pode variar.

 

2. Fase pré-ovulatória

 

a partir do momento que menstruamos, devagarinho o corpo começa a produzir o estrogênio. Um hormônio danado que influencia demais o nosso corpo. Sua concentração aumenta conforme o folículo ovariano amadurece e atinge o pico da sua produção na ovulação.

 

3. Fase ovulatória

 

temos um pico de estrogênio e junto com isso o início da produção da progesterona que vai fazer a modificação e sustentação da parede do útero pro caso de haver uma fecundação. A parede do endométrio fica bem espessa paro embrião poder “grudar” ali e começar a crescer.

 

4. Fase pré-menstrual

 

se houve a fecundação a progesterona continua aumentando e se mantém alta durante toda a gravidez. Mas se não houver embrião, os níveis de progesterona começam a cair e, até que, sem a ação deste hormônio a parede do útero começa a se descamar. E, então, começa novo ciclo menstrual.

 

 

Sob o ponto de vista emocional/comportamental – nossa lunação

 

Mas e quando a mulherada não sabia nada sobre essa coisa de variação hormonal? Mulheres simplesmente observavam como se sentiam e respeitavam os pedidos do corpo, seguindo os sinais da sua própria natureza. Essa observação dá origem a um conhecimento que faz referência do nosso ciclo menstrual com as fases da lua.

O ciclo lunar, da natureza, tem também 28 dias, você sabia? Assim como a média de duração do nosso ciclo menstrual. E, a partir da observação dos fenômenos comportamentais, foi possível ampliar a visão para a totalidade do corpo e identificar padrões que acontecem em cada fase do ciclo.

Assim, sob o ponto de vista lunar nosso ciclo também é dividido em 4 fases (coincidência?):

Lua nova: equivalente à fase menstrual. Estamos iniciando um novo ciclo. Pede reflexão e cuidado.

Lua crescente: equivalente à pré-ovulatória. Começamos a ganhar nova energia de criatividade.

Lua cheia: equivale à fase ovulatória. Estamos no nosso pico de energia, em expansão, querendo exteriorizar, manifestar a nossa luz.

Lua minguante: equivalente à fase pré-menstrual. Quando o corpo se prepara para uma gestação ou para um novo ciclo. Estamos mais interiorizadas com a possibilidade de gerarmos nova vida.

Conhecendo cada uma das fases do nossos ciclo, podemos também compreender melhor o nosso comportamento. Me conte, você sabe em que fase do ciclo está?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Um ciclo de dentro para fora e de fora para dentro

Um ciclo de dentro para fora e de fora para dentro

Uma mulher ao longo da sua vida menstrua por volta de 400 a 450 vezes. São mais de 35 anos vivenciando ciclos que se repetem todos os meses. Com nossas avós, bisavós, tataravós e tantas mulheres antes de nós foi um pouco diferente. Minha avó teve 6 filhos e conheço histórias de mulheres que tiveram 10, 12, 14 filhos. Você deve conhecer alguma também. Praticamente emendando uma gravidez na outra, a mulher vivenciava uma quantidade menor de ciclos menstruais. Afinal, eram 9 meses gestando e depois mais alguns meses amamentando, até que o corpo voltasse a ser fértil e ela engravidasse novamente.

Para continuarmos essa conversa é bom definirmos:

Ciclo é o espaço de tempo durante o qual ocorre e se completa, com regularidade, um fenômeno ou um fato, ou uma sequência deles.

Também pode ser definido como uma série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste. No caso do ciclo menstrual, começa no primeiro dia da menstruação e termina no último dia antes da próxima menstruação. O produto físico que vemos desse ciclo é o sangue, a própria menstruação, mas dentro de nós acontecem uma quantidade muito significativa de modificações químicas, bioquímicas, físicas, mentais e comportamentais. É ou não é?

Minha avó, bisavó e muitas antepassadas tiveram seus corpos menos expostos aos efeitos dos hormônios que regulam o ciclo menstrual. Me parece então que, com a mudança de comportamento social e a mulher com mais controle sobre suas decisões e escolhas, o corpo feminino tem precisado se adaptar à exposição maior aos hormônios. Hoje escolhemos quando engravidar, temos projetos além do familiar. Dividimos atenção para cuidados pessoais, trabalho, amigos, viagens, estudos, autoconhecimento, mensagens intermináveis no whatsapp.

Um ciclo não diz mais respeito somente à procriação.

Não é só o que vem de dentro que afeta essa ciclicidade. O estilo de vida influencia, e muito, a regulação desses ciclos. É exatamente porque muitas de nós tem levado um modo de vida desgastante que eu, de verdade, não acredito que nossos incômodos com o ciclo menstrual sejam culpa só dos hormônios.

O que fazemos com o nosso corpo influencia no nosso sistema interno.

Não é nada fisiológico viver uma rotina maluca, desgastante, estressante, sentindo o peso da responsabilidade, comendo mal, estando cada vez mais afastada da natureza e mais próxima do celular, sobrevivendo às influências culturais, filhos, casa, trabalho. O meu corpo, o seu corpo, mulher, está fazendo o que pode. Se adaptando do jeito que dá e, muitas vezes, adoecendo silenciosamente. Nossas escolhas externas afetam a bioquímica interna. É sabido.

Não é sobre ser vítima da cultura, do capitalismo ou até do machismo. É sobre autocuidado. Ao invés de sermos passivas com relação à nossa saúde, deixando por conta apenas de diagnósticos médicos e resultados de exames, é sermos ativas, conhecendo, ouvindo e atendendo às necessidades do nosso corpo para termos – olha que simples – saúde!

É hora de nos tornarmos responsáveis pelo próprio cuidado. Escolher o cuidado de si como prática de vida, como descreveu Foucault.

“Nós causamos o nosso próprio sofrimento por ignorância”.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

A vergonha da primeira menstruação

A vergonha da primeira menstruação

Na primeira vez que eu menstruei eu senti vergonha. Eu tinha 11 anos, sabia muito pouco sobre o que era menstruar, mas o suficiente para desejar que este dia não chegasse. Eu não queria virar mocinha. Eu não queria essa responsabilidade. Diziam que a partir dali eu precisaria me comportar e tomar muito cuidado com os meninos. Os meninos. Eles, que já eram meus inimigos, se tornariam ainda mais ameaçadores?

Chamei minha mãe no banheiro. Contei o que estava acontecendo. Ela me mostrou como colocar o absorvente na calcinha e me deixou sozinha, respeitando minha privacidade. Pelo menos naquele momento. Do banheiro fui direto para o quarto, com a intenção de dali nunca mais sair. No caminho, meu pai, com um sorriso no rosto, me olhou me parabenizando por aquele momento. Para eles era motivo de comemoração. Para mim, era vergonha.

Fico pensando em tantas meninas e mulheres que, assim como eu, começam essa fase tão natural e poderosa de suas vidas sentindo vergonha ou até mesmo medo. Daquilo que temos vergonha queremos fugir e nos esconder. E a vergonha carrega com ela a vulnerabilidade. Eu penso que é exatamente o oposto de vulnerável que deveríamos nos sentir nesse momento. A menarca é o início da natureza feminina se manifestando no corpo. A fertilidade, a iniciação de uma trajetória de evolução e maturação. Somos cíclicas, somos férteis e a cada mês temos a possibilidade de criar qualquer coisa, de forma intensa e profunda. Isso não deveria ser motivo de vergonha.

Dali em diante eu teria, todos os meses, a oportunidade de me conhecer melhor, buscar a conexão com aquilo que faz sentido e me liberar daquilo não faz sentido para mim. Mas não foi assim que aprendi e nem assim que vivenciei. Cólicas, sangue sujando o lençol, inchaço, irregularidade, mau humor. Era isso que eu esperava sobre a menstruação. Já nem sei dizer se eu mesma tinha essa percepção ou se foi algo que aprendi ouvindo as mulheres que me cercavam. Chego a questionar se os sintomas de fato existiam ao ponto de me incomodar ou se era isso que eu achava que deveria ser.

Menstruar é fisiológico e não patológico. Para que um ciclo funcione sem trazer dor, sem sofrimento, é preciso que consciência e aceitação estejam presentes na própria natureza. As alterações no ritmo, o excesso ou ausência na quantidade de sangue, o excesso de cólica ou qualquer outra dor decorrente do ciclo menstrual, são sinais de um corpo em desarmonia. Alimentação desequilibrada, sono perturbado, pressão emocional, pressão no trabalho, preocupações com dinheiro, falta de afeto, relações de abuso, uso de medicamentos e hormônios… existem muitos, muitos, fatores que podem influenciar na forma como vivemos cada ciclo. Você sabe disso. E sabe também que cada corpo tem necessidades específicas. Podemos descobrir o que o nosso próprio corpo está querendo nos dizer. É preciso estar atenta para perceber, sentir e ouvir, e é preciso disponibilidade de dar ao corpo exatamente o que ele precisa para funcionar de maneira fisiologicamente equilibrada.

Se houver dor em excesso, sangramento em excesso, irregularidade no ciclo, investigue sim possíveis causas orgânicas com a sua ginecologista. Qualquer disfunção diagnosticada precisa ser tratada, mas independente disso, toda vez que o seu ciclo te trouxer incômodo, se pergunte: o que falta a esse corpo para que ele se sinta bem? Para que me sinta bem, para que eu esteja feliz com minha própria fisiologia?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Quando o corpo ovula é abundância

Quando o corpo ovula é abundância

Na noite do último domingo eu dancei. Dancei como se fosse a última noite. Era Elba Ramalho no palco. Show para poucas pessoas no lugar que mais gosto de dançar aqui onde eu moro. A luz, o som, o calor, a alegria que vinha de dentro. Tinha uma atmosfera que fazia meu olho brilhar. Meu corpo era como amor em excitação.

Logo na primeira música, eu senti que meu desejo era brincar, soltar, me deixar levar. Não importava se o passo estava certo, se a roupa estava torta, se o cabelo estava despenteado. Eu queria bagunçar, rir com o outro, provocar alegria. Meu corpo era criança querendo se divertir.

Eu pulsava vida, aberta para a conexão com cada um que me convidava para a dança. De corpo inteiro me entreguei. Me reconhecia mulher, me sentia linda, meu corpo era como água querendo fluir.

E dancei, no ritmo do som da zabumba, olhando nos olhos de quem me conduzia, sorrindo enquanto me aventurava em cada rodopio, com minha própria permissão para que eu manifestasse a felicidade. Eu mereço. Nós merecemos.

Quando o corpo ovula é abundância que vibra por dentro e se expressa fora de nós. Tenho a sensação que os aspectos positivos da minha personalidade transbordam. Me sinto mais criativa, intuitiva, esperta, produtiva, mais disposta a ouvir e me conectar com o outro. Saio do mundo interior e me exponho, sem vergonha, ao mundo exterior.

Essa fase do ciclo menstrual, numa visão holística, pode ser comparada à lua cheia, que movimenta as águas e desperta a fluidez, a entrega, a adaptabilidade, a transparência. Sim, me sinto água enquanto danço e sinto, muito forte, a energia da feminilidade e da fertilidade a partir da vontade de conexão e intimidade com o outro.

Quando chego em casa me deito, fecho os olhos e sinto o sangue fluir, a respiração acalmar. Desejo que mais momentos como esses aconteçam e que eu esteja cada vez mais desperta para, de fato, perceber e não deixar passar nenhuma pequena gota de felicidade que brotar em mim.

Se não estamos atentas, como poderemos reconhecer estados de plenitude? É preciso desfrutar.

*Nesse dia eu me esqueci de pedir para alguém fazer uma foto de um dos meus rodopios. Mas encontrei essa no meu celular que, apesar de não me lembrar da data, imagino que eu também estivesse ovulando.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

TPM: outros modos de usar

TPM: outros modos de usar

Todo mês acontece igual. A preparação para amadurecer, receber e fecundar um óvulo, garantindo, ou não, a continuidade da espécie, provoca mudanças. São físicas, biológicas, hormonais, emocionais e, também, comportamentais. Todos os meses. Ao longo de cerca de 39 anos. Por mais de 400 ciclos. É assim que acontece. E já sabemos disso.

Ciclo é o espaço de tempo no qual acontece e se completa algum fenômeno com determinada regularidade. Tem começo, meio e fim. E começa tudo de novo. Ciclam as estações do ano, as fases da lua e o corpo da mulher.

Eu adoraria, mas nem sempre soube lidar com as consequências desse sobre e desce hormonal. Quando jovem demais, o corpo ainda aprendia a ciclar. O sangramento era irregular, as cólicas muito fortes. Adolescentes experimentam ciclos desconfortáveis nos primeiros anos menstruando. Quantas de nós conheceu alguém da escola que faltava à aula por conta de sintomas intensos?

Com o tempo, músculos, útero, ovários, se adaptam. Permanece o desafio de aprender a lidar com a emoção e o comportamento. As obrigações, demandas, sobrecargas, dezenas de tarefas e compromissos, influenciam nossa fisiologia. Quantas crises, questionamentos, carências, sentimento de solidão vamos vivenciar diante da sobrecarga? Ó vida adulta. Ó mundo cruel.

Um corpo, quando saudável no físico, mental, emocional e espiritual, não apresenta disfunções. O corpo esquecido, esse sim, grita por deixar de ser olhado. A menos que exista alguma desordem de origem orgânica, como mioma ou endometriose ou policistos, é para que seu ciclo seja como deve ser: fisiológico, natural, do jeito que é ser mulher.

Mas por que tantas vezes percebemos a menstruação como algo incômodo?

Mais de 40% das mulheres já desejaram menstruar menos vezes no ano ou até mesmo não menstruar nunca.

Que saco isso de todo mês sangrar, me sentir plena e irradiante numa semana e na outra me sentir completamente desinteressante e inútil? Quantos projetos já empaquei por conta dessa flutuação?

Sinto que estamos fazendo alguma coisa errada, meio que nadando contra a maré, remando contra o vento. Já remou contra o vento? Eu já. Cansa muito mais e o esforço é muito maior para sair do lugar.

Em algumas culturas a tensão pré-menstrual, por exemplo, não é vista como um mal a ser combatido. O que não significa que as alterações emocionais, decorrentes da queda de hormônios na fase pré menstrual, não existam. Apenas não são vistas como patológicas.

Por aqui, reconhecemos como síndrome. É patologia descrita na lista da classificação internacional de doenças. E algumas vezes de fato é. Três a 11% das mulheres experimentam sintomas exacerbados necessitando de intervenções mais específicas. No corpo que cuida de si, que se alimenta bem, que escuta os próprios pensamentos, que cuida das relações, que descansa, que se movimenta, que se socializa, a fase pré-menstrual é apenas a fase pré-menstrual.

Já tive a sensação de que o que eu não queria era lidar com o que surge. A raiva vinha por estar sentido a raiva. Prefiro negar que existe em mim agressividade, a tristeza, a baixa autoestima. Ô se existe. E aí, fica difícil ser perfeita quando hormônios flutuam, quando o trânsito é caótico, quando não existe segurança na rua, quando há julgamento de todos os lados, quando somos obrigadas a ser o que esperam de nós. Me deixa ser perfeita, pô.

Esse mês eu não tive TPM. Fiquei irritada e impaciente em alguns momentos, mas saquei que era pontual. E saquei também que o ambiente, as relações, a tranquilidade interna, a ampliação do olhar para esse momento, influenciaram a maneira que percebo cada uma das minhas emoções.

Estou preferindo a auto responsabilidade. Não há nada errado que precise ser negado. Reconheço, sim, que a reatividade e as atitudes mais impulsivas nessa fase do ciclo trazem consequências. Cabe a quem resolver esse “problema”? Nossas emoções mais simples não precisam ser interpretadas como patológicas. A forma com que reagimos a elas, talvez, sim.

Serão mais de 400 ciclos ao longo da vida de uma mulher. É melhor começarmos a aceitar, acolher, conhecer, perceber e se organizar de forma diferente a partir desta consciência.

 

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

12 anos sem anticoncepcional

12 anos sem anticoncepcional

Comecei com os hormônios bem jovem. A menstruação era irregular e os ovários tinham micropolicistos. Eu me lembro dos vários pontinhos pequeninos e brancos no meu primeiro ultrassom. O tratamento funcionou, a menstruação regulou e eu continuei tomando a medicação por conta da função contraceptiva.

Doses mais altas, doses mais baixas, uns davam dor de cabeça, outros exacerbavam a TPM. Testei vários. Mas me veio muito incômodo porque eu vivia esquecendo um, dois, às vezes três comprimidos. No momento de recomeçar uma nova cartela, sempre me perdia nas contas dos dias de pausa. A ginecologista sugeriu que eu experimentasse uma medicação de uso contínuo. De repente, sem a pausa, as chances de erro poderiam diminuir. Mas eu continuava, todos os meses, me esquecendo de tomar um, dois, às vezes três comprimidos da cartela.

“Uma hora isso pode dar problema”, pensei. Em 2006 decidi não mais colocar os hormônios no meu corpo e optar exclusivamente pelo uso da camisinha. Eu sempre usava, mesmo com a medicação. Mas sempre, nunca é sempre né? Sem a pílula, não tinha conversa, corpo mole, euforia ou tesão que pudessem impedir o uso dela. E ponto final.

Com o tempo, essa decisão me impulsionou a olhar melhor para o meu próprio ciclo. Eu não fazia ideia se eu era regular, se tinha cólicas fortes, como era a minha TPM, se espinhas iriam aparecer, se eu ganharia peso. Era meu corpo pilotando seu próprio útero, ovários e hormônios.

A tpm de fato começou a incomodar. Eu tinha a sensação de viver irritada, dando patada e colocava a culpa nessa fase. “Não é possível, você passa mais da metade do mês com tpm”, desconfiaram. Por questões de melhor comunicação e sobrevivência das relações, comecei a anotar o primeiro dia de cada menstruação. Mais ou menos, bem mais ou menos, eu poderia justificar ataques de fúria se tivesse o mínimo de clareza.

Mas era só isso que eu fazia até engravidar do meu filho. E depois da aventura de gerar uma vida, minha conexão com útero, ovários e vagina nunca mais foi a mesma, no bom sentido. Somos, eu e meu sistema reprodutor, uma coisa só. Chego a desconfiar que existe uma via de comunicação direta do meu útero. Quase ouço o que essa parte do corpo tem a dizer.

De lá pra cá foram 12 anos. Aos poucos fui me interessando, me aprofundando, conhecendo meios de anotar minhas percepções e, assim, encontrar padrões que se repetem em cada diferente fase do meu ciclo menstrual. Consigo, por exemplo, perceber que estou ovulando ao sentir uma dor como se tivesse um alfinete bem fininho no meu abdomen inferior. Com um pouquinho de sensibilidade dá para notar se é o ovário direito ou esquerdo que está em ação. Consigo também notar o período ovulatório pela maior lubrificação e às vezes percebo o muco como clara de ovo. e pela sensação de maior fluxo sanguíneo no local. Temperatura também é um sinal, mas eu nunca medi, e também nunca toquei o colo do útero nessa fase para ver se tem alguma diferença comparado a outras fases do ciclo.

Para ligar esse radar, eu passei da tabelinha normal para um aplicativo. É simples, visualmente fácil de reconhecer as fases do ciclo e está sempre à mão. Depois de instalar e desinstalar alguns, eu escolhi um que se chama Maia. Gosto da simplicidade e da maneira como mostra as previsões no calendário. Experimentei e gostei também do Clue, que é cheio de graça e foi bem recomendado. Além da tecnologia, testei a mandala lunar no ano passado. É uma espécie de agenda para anotarmos uma pancada de detalhes, com lápis de cor e tudo. É incrível o autoconhecimento a partir dela, mas é tanta coisa que abandonei. Sigo com as anotações no próprio aplicativo e num caderno normal. Nele eu desabafo reflexões sobre o ciclo menstrual e outros tantos processos de desenvolvimento. Viraria escândalo nas mãos de pessoas erradas.

Não me vejo novamente tomando anticoncepcional. Hormônios sintéticos são contraditórios e eu prefiro evitar qualquer tipo de polêmica na minha vida. Como toda escolha, tem prós e contra. Como faço para prevenir? Mesmo confiando no conhecimento e percepção que toda mulher atenta tem sobre seu ciclo, prefiro sempre a camisinha. Claro. É bom pra evitar bebês e garante uma pepeka livre de doenças.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.