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Fio condutor: o que conecta seus conhecimentos?

Fio condutor: o que conecta seus conhecimentos?

Sobre transições de carreira e fios condutores.

Eu me formei em fisioterapia. Na época sentia uma curiosidade imensa por entender o que tem por trás do movimento. Músculos, ossos, nervos. De que forma nos empilhamos e nos mantemos de pé? O que faz com que eu me mova, dê um passo, um pulo ou um sorriso?

Meu corpo é humano. Conhecer como ele funciona, nos seus mais diferentes aspectos, sempre foi parte dos meus interesses apaixonados.

Mas não foi na fisioterapia, no modo convencional de entendê-la, que conquistei autonomia financeira e satisfação no trabalho. Foi ao lado de mulheres inquietas e em busca de sua autonomia profissional, financeira, emocional.

Ao conduzir uma rede de mulheres e manifestar minha liderança, aprimorar minha comunicação, desenvolver minha escrita e com isso conquistar confiança, por um tempo eu neguei e achei que estava deixando de lado todo conhecimento aprendido ao longo dos 11 anos em que atuei área da saúde com direcionamento inclusive para a parte acadêmica. Era como se uma habilidade não tivesse nada a ver com a outra e tudo aquilo que sou estivesse separado em caixas de conhecimento. E, não sei se você já fez alguma mudança na vida profissional, mas esse tipo de pensamento e de transição costuma ser acompanhado da sensação de traição, culpa e angústia.

Não precisa ser assim. A vida é como se fosse uma obra de arte, páginas que podem ser escritas da forma como desejamos. Podemos brincar mais, experimentar mais, sonhar mais e, a partir de autorresponsabilidade e amor, podemos arriscar mais. O que pode acontecer se vivermos com essa energia de curiosos?

Hoje, em meio à momentos de dúvidas, crenças e revoltas, eu consigo perceber: minha formação é meu coração, meu norte, minha missão. Tanto em rede com outras mulheres, quanto em equipes ou em sala de aula ensinando outros profissionais, conduzindo práticas corporais, o SER é meu interesse. Pessoas, suas histórias e como se movem a partir do que acontece é o que me interessa. A fisioterapia abriu caminho para que eu pudesse começar a explorar, mas foi deixando a fisioterapia que pude ir além e caminhar descobrindo tudo aquilo que move o ser humano. Quanto mais eu dou passos, mais percebo a amplitude do que é o corpo, do que faz com que cada um de nós se movimente em um sentido ou outro.

Transcende. Está além de músculos, ossos, nervos.

Talvez você se perceba se movimentando em direções que não são exatamente as que gostaria? Temos inconsciências que influenciam nossas atitudes e nos geram pensamentos e falas paralisantes: “Tenho medo de falar em público”, “Não consigo me controlar, sou muito agressiva com meu namorado”, “Ele me deixa pra baixo, mas não consigo sair desse relacionamento”, “Vivo procrastinando e não consigo ganhar dinheiro com meu trabalho”, “Não vou entrar em contato com essa pessoa, ele é ótimo profissional, nem vai dar atenção à minha ideia?”.

Movimentos não se desenrolam somente a partir de músculos, ossos, nervos.

O movimento inclui nossos medos e bloqueios, nossas experiências, nossa emoção, nossa história, nossa ancestralidade, nossa conexão com o todo, com a nossa alma. O movimento, não tenho dúvidas, inclui forças que nossos 5 sentidos não conseguem captar.

O movimento somos nós na nossa maior esfera. Como você se move? O que te move? O que conecta tudo aquilo que você já aprendeu ao longo da sua maravilhosa jornada de vida? Qual o fio condutor?

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PS 1. A foto que ilustra esse post é de uma roda de negócios que conduzi pela de saia. Uma única roda onde reconheço que integrei meus conhecimentos e habilidades. Mais disso farei!

PS 2. Escrevo esse texto durante meu próprio processo de integração de tudo aquilo que aprendi e faz parte de quem eu sou.

Um trabalho de autoconhecimento e espiritualidade que tem me levado a realizar movimentos diferentes do que antes eu considerava o correto. Um trabalho de abertura e ressignificação de propósito e vida.

Um texto que antes eu não publicaria por saber que por trás dele tem uma caminhada de luz que antes eu diria namastê demais e sentiria vergonha em compartilhar. Meu momento é de transição, e nem sei se algum dia deixará de ser, minha base é a autonomia emocional e a autenticidade. Eu tenho medos e tenho também tranquilidades, certezas de que quanto mais eu mergulho na minha essência, mais sinto a plenitude.

E Namastê sim, com beijos de Gratiluz, porque tudo isso também faz parte do meu ser.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Dance como se não tivesse ninguém olhando

Dance como se não tivesse ninguém olhando

Se existe algo que sinto prazer é prestar atenção no que acontece no ambiente em que estou. Cores, sons, pessoas e suas expressões, sabores, aromas. Meu olhar procura detalhes. Cada estímulo poderia ser poesia, poderia ser a cena de um filme, poderia ser a página de um livro.

Gosto especialmente de observar como o corpo se expressa. Gosto de ver um casal à mesa de um restaurante e ficar imaginando há quanto tempo eles se conhecem, se já possuem intimidade, se dormem juntos todas as noites, quais são os motivos das desavenças entre eles, se eles se permitem viver o amor.

Eu gosto de ver as manifestações do amor.

Outro dia, num restaurante japonês, desses que você encontra orientais comendo na mesa ao lado e presume ser um bom sinal sobre a qualidade da comida, um casal se sentou à minha frente. Ele, nitidamente querendo agradar. Ela, visivelmente encantada. Demorou um tempo até que ele decidisse em qual cadeira se sentar. Foi estranho. Me fez pensar que ele era gago ou que nunca tinha levado uma moça para jantar. Fiquei com a sensação que eles não tinham esse costume. Ela sorria, sem graça, meio tímida, desengonçada e desconfortável no vestido arrumado, que poderia ter sido emprestado da prima mais velha. Sua feição não era exatamente bela, mas estava iluminada pelo carinho que recebia dele.

“Talvez seja o primeiro ou o segundo encontro”, pensei. Ela tinha na postura o ar da conquista. Diria que seu lado mais autoconfiante estava presente. Olhos nos olhos, movimentos delicados, suaves, que seduzem com naturalidade. De repente, um beijo cheio de desejo, ali mesmo, na mesa em que estavam sentados. E, depois do beijo, a demonstração discreta da alegria: o rosto se abaixa, a mão esconde o sorriso, os olhos se fecham e depois se abrem procurando o olhar do outro.

Ela me lembrou uma outra moça que sempre vejo na aula de dança de sexta a tarde, que acontece no lugar onde, no mesmo horário, sempre peço um pedaço de bolo e um capuccino. Ela não tem ritmo. Seu corpo parecia dançar uma música imaginária muito diferente da que tocava no auto falante. Sem sentido, sem padrão, totalmente descompassado. Mesmo assim, ao ver um rapaz dançando sozinho, se aproximou. Ele a recebeu com um sorriso, ajeitando o cabelo encaracolado e bagunçado, segurou a mão dela e os dois se divertiram, como se ali não houvesse mais ninguém.

Isso também me fez lembrar o meu pai que, independente do ritmo que esteja tocando, parece sempre dançar uma valsa. Mas, meu pai não tem a coragem que essas moças tinham. E nem eu. Nos preocupamos demais com o que os outros estão pensando. Não sabemos gozar a vida como as moças desengonçadas. Preferimos muitas vezes ficar sentados, observando.

Na minha “poesia” percebo que elas tem algo em comum: a coragem de ser exatamente quem são, independente da aprovação de quem estiver olhando.

Assim sigo aprendendo a me libertar dos padrões e do que eu imagino que esperam que eu seja ou faça. Sinto, na minha vida, que quando vivencio momentos assim, eles vem do amor. O amor que posso sentir por mim mesma, o amor pela vida, o amor pelo amor!

Dançaremos como se não tivesse ninguém olhando?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

As fases do ciclo menstrual

As fases do ciclo menstrual

O título daquela música não mente: eu sou mulher de fases (ou seria de faces?)

Somos todas cíclicas. O grande desafio é aceitar que esse é o nosso natural e jogar fora a imagem estereotipada da mulher surtada. Não sei, me parece que um bom começo seja conhecer o que acontece com o nosso próprio corpo. Conhecer mesmo, pelo menos o essencial, sobre a liberação dos hormônios nas diferentes fases do ciclo menstrual e o que eles provocam.

Nosso ciclo, mulher, do ponto de vista endócrino, hormonal, físico, é complexo. Não havia outro jeito das emoções se comportarem, senão igualmente de forma complexa.

Vamos com calma. Podemos dividir as fases do nosso ciclo sob diferentes pontos de vista. Dependendo de onde você olha vai encontrar uma explicação diferente. Claro, tudo acontece interligado, mas é olhando cada parte que podemos entender melhor como nosso corpo se comporta.

1.       Sob o ponto de vista dos ovários

 

Se considerarmos o que acontece nos nossos ovários, dividimos o ciclo em duas fases:

Fase folicular, tudo que vem antes da ovulação, e fase lútea tudo que acontece depois da ovulação.

O primeiro dia da menstruação é o primeiro dia do ciclo e marca o início da fase folicular, que deve se encerrar por volta do 13º ou 14º dia, quando você ovular.

Na fase folicular, o corpo feminino libera um hormônio chamado hormônio folículo estimulante. É uma glândula, conhecida como hipófise, que produz e libera esse hormônio. E o que ele faz? Ele estimula o folículo ovariano, ou seja, a formação de um monte de células contidas dentro o óvulo. Esse folículo cresce amadurecendo o óvulo e com isso o corpo começa a produzir um outro tipo de hormônio chamado estradiol (o estrogênio vem dele), que faz a parede que reveste o útero começar a se preparar para receber um possível embrião.

Quando o óvulo está formado e maduro o tal do folículo se rompe e o óvulo é liberado e direcionado às tubas uterinas com ajuda de fímbrias, que é como se fossem pequenos tentáculos. Isso vai acontecer praticamente na metade do seu ciclo marcando o início da fase lútea.

Você pode perceber que a ovulação está chegando porque a vagina produz um muco mais viscoso, que parece uma clara de ovo. A libido também costuma mudar quando chega a ovulação e muitas mulheres sentem também uma cólica bem pontual.

Com a ovulação o corpo começa a produzir a progesterona, que é o hormônio fundamental para manutenção da parede que reveste o útero para receber o embrião. Se o óvulo foi fecundado, ele se implanta no endométrio e começa a gestação. Se não há fecundação, não há embrião e, portanto, não há bebê. E é aí que o corpo deixa de produzir a progestrerona. É como um sinal para o nosso organismo: “Hey, não tem embrião. Pode deixar de sustentar essa parede do útero aí”.

E então, acontece a queda hormonal. Sem a progesterona e o estrogênio o endométrio não se sustenta. A parede do útero descama junto com sangue e começa então outro ciclo com a chegada da menstruação. A fase lútea dura 14 dias.

Sob o ponto de vista do útero

 

Uma coisa é o que acontece com os ovários: folículo amadurece, libera óvulo e pronto. É a essência da vida.

Mas nesse tempo, o que acontece com o útero?

Sob o ponto de vista do ciclo uterino, o ciclo menstrual é dividido em 4 fases (respira que tá tudo bem. Ao longo do processo você começa a sacar melhor):

2.1. Fase menstrual;

2.2. Fase pré-ovulatória (proliferativa ou estrogênica);

2.3. Fase ovulatória;

2.4. Fase pré menstrual (Secretora ou progestacional).

Acompanhe:

 

1. Fase menstrual

 

Estamos menstruando, certo? Estrogênio e progesterona estão em baixa. Significa que não houve fecundação, toda a preparação da parede do útero para receber o óvulo foi em vão e então. Com a queda da progesterona, o endométrio se descama junto com sangue. Por isso que existem alguns coágulos junto com o sangue e a cor pode variar.

 

2. Fase pré-ovulatória

 

a partir do momento que menstruamos, devagarinho o corpo começa a produzir o estrogênio. Um hormônio danado que influencia demais o nosso corpo. Sua concentração aumenta conforme o folículo ovariano amadurece e atinge o pico da sua produção na ovulação.

 

3. Fase ovulatória

 

temos um pico de estrogênio e junto com isso o início da produção da progesterona que vai fazer a modificação e sustentação da parede do útero pro caso de haver uma fecundação. A parede do endométrio fica bem espessa paro embrião poder “grudar” ali e começar a crescer.

 

4. Fase pré-menstrual

 

se houve a fecundação a progesterona continua aumentando e se mantém alta durante toda a gravidez. Mas se não houver embrião, os níveis de progesterona começam a cair e, até que, sem a ação deste hormônio a parede do útero começa a se descamar. E, então, começa novo ciclo menstrual.

 

 

Sob o ponto de vista emocional/comportamental – nossa lunação

 

Mas e quando a mulherada não sabia nada sobre essa coisa de variação hormonal? Mulheres simplesmente observavam como se sentiam e respeitavam os pedidos do corpo, seguindo os sinais da sua própria natureza. Essa observação dá origem a um conhecimento que faz referência do nosso ciclo menstrual com as fases da lua.

O ciclo lunar, da natureza, tem também 28 dias, você sabia? Assim como a média de duração do nosso ciclo menstrual. E, a partir da observação dos fenômenos comportamentais, foi possível ampliar a visão para a totalidade do corpo e identificar padrões que acontecem em cada fase do ciclo.

Assim, sob o ponto de vista lunar nosso ciclo também é dividido em 4 fases (coincidência?):

Lua nova: equivalente à fase menstrual. Estamos iniciando um novo ciclo. Pede reflexão e cuidado.

Lua crescente: equivalente à pré-ovulatória. Começamos a ganhar nova energia de criatividade.

Lua cheia: equivale à fase ovulatória. Estamos no nosso pico de energia, em expansão, querendo exteriorizar, manifestar a nossa luz.

Lua minguante: equivalente à fase pré-menstrual. Quando o corpo se prepara para uma gestação ou para um novo ciclo. Estamos mais interiorizadas com a possibilidade de gerarmos nova vida.

Conhecendo cada uma das fases do nossos ciclo, podemos também compreender melhor o nosso comportamento. Me conte, você sabe em que fase do ciclo está?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Um ciclo de dentro para fora e de fora para dentro

Um ciclo de dentro para fora e de fora para dentro

Uma mulher ao longo da sua vida menstrua por volta de 400 a 450 vezes. São mais de 35 anos vivenciando ciclos que se repetem todos os meses. Com nossas avós, bisavós, tataravós e tantas mulheres antes de nós foi um pouco diferente. Minha avó teve 6 filhos e conheço histórias de mulheres que tiveram 10, 12, 14 filhos. Você deve conhecer alguma também. Praticamente emendando uma gravidez na outra, a mulher vivenciava uma quantidade menor de ciclos menstruais. Afinal, eram 9 meses gestando e depois mais alguns meses amamentando, até que o corpo voltasse a ser fértil e ela engravidasse novamente.

Para continuarmos essa conversa é bom definirmos:

Ciclo é o espaço de tempo durante o qual ocorre e se completa, com regularidade, um fenômeno ou um fato, ou uma sequência deles.

Também pode ser definido como uma série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste. No caso do ciclo menstrual, começa no primeiro dia da menstruação e termina no último dia antes da próxima menstruação. O produto físico que vemos desse ciclo é o sangue, a própria menstruação, mas dentro de nós acontecem uma quantidade muito significativa de modificações químicas, bioquímicas, físicas, mentais e comportamentais. É ou não é?

Minha avó, bisavó e muitas antepassadas tiveram seus corpos menos expostos aos efeitos dos hormônios que regulam o ciclo menstrual. Me parece então que, com a mudança de comportamento social e a mulher com mais controle sobre suas decisões e escolhas, o corpo feminino tem precisado se adaptar à exposição maior aos hormônios. Hoje escolhemos quando engravidar, temos projetos além do familiar. Dividimos atenção para cuidados pessoais, trabalho, amigos, viagens, estudos, autoconhecimento, mensagens intermináveis no whatsapp.

Um ciclo não diz mais respeito somente à procriação.

Não é só o que vem de dentro que afeta essa ciclicidade. O estilo de vida influencia, e muito, a regulação desses ciclos. É exatamente porque muitas de nós tem levado um modo de vida desgastante que eu, de verdade, não acredito que nossos incômodos com o ciclo menstrual sejam culpa só dos hormônios.

O que fazemos com o nosso corpo influencia no nosso sistema interno.

Não é nada fisiológico viver uma rotina maluca, desgastante, estressante, sentindo o peso da responsabilidade, comendo mal, estando cada vez mais afastada da natureza e mais próxima do celular, sobrevivendo às influências culturais, filhos, casa, trabalho. O meu corpo, o seu corpo, mulher, está fazendo o que pode. Se adaptando do jeito que dá e, muitas vezes, adoecendo silenciosamente. Nossas escolhas externas afetam a bioquímica interna. É sabido.

Não é sobre ser vítima da cultura, do capitalismo ou até do machismo. É sobre autocuidado. Ao invés de sermos passivas com relação à nossa saúde, deixando por conta apenas de diagnósticos médicos e resultados de exames, é sermos ativas, conhecendo, ouvindo e atendendo às necessidades do nosso corpo para termos – olha que simples – saúde!

É hora de nos tornarmos responsáveis pelo próprio cuidado. Escolher o cuidado de si como prática de vida, como descreveu Foucault.

“Nós causamos o nosso próprio sofrimento por ignorância”.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Você pode controlar o comportamento, mas não o sentimento

Você pode controlar o comportamento, mas não o sentimento

Na última semana meu filho de 5 anos me mordeu na barriga. Mordeu forte. Ele estava com muita raiva porque eu não deixei que dormisse na casa dos primos.

Às vezes eu também sinto vontade de morder as pessoas. Ou de repente puxar os cabelos, enfiar o dedo no olho. Mas eu não posso, porque me ensinaram que eu devo controlar as minhas emoções e manifestar a raiva é coisa de gente descontrolada.

Controlar as emoções?

Ultimamente tenho pensado muito sobre jeitos de lidar, expressar e manifestar a emoção, especialmente a raiva. Dar espaço pro corpo fazer o que precisa fazer para liberar sentimento, sem invadir o espaço do outro, sem encostar no corpo do outro, blindando qualquer pessoa dessa manifestação, que é só de quem sente a raiva.

Ser gentil, educada, procurar as palavras certas, usar de métodos pra uma comunicação mais empática, oferecer um pedaço do chocolate, buscar água, responder o whatsapp o mais rápido possível, perguntar se estão precisando de alguma coisa, abaixar a tampa do vaso, levantar a tampa do vaso, mandar mensagem de parabéns no dia do aniversário, oferecer um café pra visita em casa.

Todo mundo espera um comportamento específico.

Eu ando tão cansada de regras de boa educação que me senti incomodada por não saber ensinar o meu filho a lidar com a emoção sem necessariamente reprimir. Eu mesma não sei fazer isso. Consigo contar nos dedos quantas vezes na vida eu deixei a raiva se manifestar. Se eu pudesse diria: “É isso aí filho, coloca essa raiva pra fora, grita mesmo, esperneia mesmo, não precisa esconder o que você está sentindo. Mas mantenha suas mãos e seus dentes longe do meu corpo porque não podemos sair por aí mordendo e nem arrancando o cabelo de ninguém.”

“Conseguimos controlar o comportamento, mas não o sentimento”.

Como é que faz pra ensinar a dar espaço pra raiva e pra frustração sem invadir o espaço do outro? Sério, na prática, como faz? Reconhecer que existe raiva já é um grande desafio, porque é um sentimento feio e, assim como a tristeza, queremos esconder. Precisamos estar felizes sempre. Tristes e com raiva, nunca. Ou pelo menos não devemos falar que estamos porque incomoda. Reconhecer que ela existe, fazer silêncio e meditar, funcionam muito, mas não combina com a raiva. Raiva combina com grito, descontrole, esperneios e boca amarga. Quantas vezes consegui fazer isso na vida depois de gente grande?

“Quando você controla o sentimento, começa a interferir no corpo e desencadeia comportamentos neuróticos.”

Teve uma manhã que, no espaço de um segundo, em forma de áudios no whatsapp, eu senti a raiva chegando. “Aqui está você, quero te ouvir, dona Raiva”. Eu gritei o mais alto que pude. Disse tudo que de fato se passava no meu pensamento, sem filtros, dei socos no voltante do carro, gritei mais um pouco, áudio atrás de áudio, meu comportamento demonstrava raiva.

Apesar da aparência, eu sentia que estava no controle. Tinha uma observadora dentro de mim mesma que sabia exatamente que era apenas um pouco de espaço para a emoção. Enquanto parte de mim gritava todos os palavrões que eu conhecia, outra parte pensava: “Puxa, que lindo! Estou manifestando a raiva. Veja como a respiração está forte, como o coração bate mais rápido e feito um tambor, como o rosto está quente e vermelho, percebe o leve formigamento no corpo por conta do sangue que circula mais rápido, os músculos tensos e rígidos. Deixa vir.”

Eu deixei, durou menos que 20 minutos, foi libertador e um exercício de aceitação da minha humanidade.

A raiva, assim como o amor, deixa marcas na nossa alma. No mesmo dia que ele me mordeu, durante o banho, meu filho perguntou o que era a marca roxeada perto do meu umbigo e sentiu vergonha. No dia seguinte desenhou uma mulher com um buraco na barriga e do outro lado um menino monstro mau correndo atrás dela. Estamos marcados com esse episódio e não paro de refletir sobre como aprender, para depois ensinar, um jeito civilizado e não reprimido de manifestar a raiva.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.

Perceber o corpo é sair do modo automático

Perceber o corpo é sair do modo automático

O corpo diz muito. Quanto menos o escutamos, mais desconforto sentimos, tanto no físico quanto no emocional. Para que nosso comportamento seja diferente, trazendo o resultado que desejamos, é preciso conhecer, perceber, saber ouvir. Afinal, como podemos mudar aquilo que nem sequer reconhecemos?

Nessa fase do meu ciclo, a fase pré-menstrual, tenho pensando muito sobre como agir diante da irritação, da falta de paciência, da raiva.

O contrário tem validade? Se estamos atentos ao corpo, agindo com responsabilidade, respeitando suas necessidades, geramos conforto, produzimos melhor, fluímos mais?

Perceber o corpo é fundamental para sair do modo automático e colher aquilo que semeamos. Por exemplo, quando não percebo a raiva e não tomo atitudes saudáveis perante ela, meu corpo reage liberando hormônios, os músculos se tensionam, o coração acelera junto com a respiração, tenho vontade esbravejar, socar, me movimentar de forma agressiva, gritar. Sinal de alerta e de auto proteção?

Tudo ok com a raiva, ela é necessária. Mas é preciso lidar com as consequências. E, sabe, tenho notado um certo padrão quando eu mesma ou pessoas com quem convivo vibram na agressividade. Parece que trava e vem junto julgamento, medo, vergonha, insegurança, solidão. Enquanto cultivo essa emoção parece que a vida não flui. Está além daquilo que meus únicos 5 sentidos conseguem reconhecer, mas sinto que, sim, recebemos exatamente aquilo que manifestamos.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.