Por trás da realização, a visão de futuro

Por trás da realização, a visão de futuro

Sentar para escrever esse texto faz parte de uma lista de tarefas que eu mesma estabeleci. Meta do dia: escrever sobre procrastinação.

Olho a mensagem no whatsapp, confiro as respostas da enquete que publiquei no stories do Instagram, levanto e pego mais um café, dou outra mordida num bolinho estranho que parecia pão de mel, mas é Nutella no recheio (não que isso seja ruim).

Me pergunto se conseguirei chegar ao fim do dia com a meta cumprida.

 

O que está por trás desse comportamento procrastinador?

 

Uma meta-análise (um tipo de análise científica que compara resultados de várias outras pesquisas sobre um mesmo tema), publicada em julho de 2019 na revista WIREs Cognitive Science, levantou quais são os principais mecanismos que levam as pessoas a procrastinar. Fazer agora ou deixar para depois?¹ Por motivos óbvios, o título da pesquisa me despertou curiosidade e tem muito dela baseando o conteúdo e a prática do Realiza.

Quando penso em procrastinação faço uma correlação com a não realização. Se procrastino, tem algo não sendo realizado. E a gente tende a achar que procrastinar é adiar algo chato, algo que não gostamos de fazer. Mas tem aí também deixar para depois os projetos que mais importam a nós. Procrastinação de longo prazo é o nome que se dá aos sonhos e deias pessoais que ficam numa gaveta qualquer do nosso coração.

No campo científico

Procrastinação se define como um atraso voluntário, mas irracional, do curso pretendido das ações

Isso significa que no fundo a gente sabe que está enrolando, é de fato ação voluntária. Mas tem algo irracional operando e influenciando as nossas escolhas. Como em tudo, caso você não saiba, nossa atitude se baseia mais significativamente no que está no nosso inconsciente.

Conhecer o que está por trás do nosso comportamento, estabelecer planos e metas e fortalecer a motivação a partir da visão de futuro, é o que tenho observado, em mim e em meus alunos, funcionar quase como antídotos para a realização. Mas confesso que tem em mim uma dualidade nesse sentido. Porque se estabeleço uma meta que não cumpro, naturalmente fica uma sensação de incapacidade e de percepção negativa sobre mim mesma: “Ah lá, não fiz de novo. Não presto, sou incapaz, nunca vou conseguir”. Se não estivermos atentas a esses pensamentos, somos carregados por eles.

 

Quantas vezes você deixou de planejar ou de estabelecer prazos e metas com medo de não conseguir cumprir seus próprios planos?

 

Tudo aquilo que planejamos fazer e não fazemos, pode deixar um residual de descontentamento. E existem estratégias para lidar com essas emoções. Ao mesmo tempo se não houver um plano, corremos o risco de deixar ao nosso irracional as rédeas das nossas decisões. E vale aqui a informação de que esse lado é cheio de medos, cheio de exemplos que nos convencem de que não devemos fazer e, além de tudo, pensa em viver a vida no menor esforço possível, na diversão e na zona de conforto, sempre que possível.

Não planejar, não pensar no futuro, pode nos colocar num local de mínimo esforço, no modo “deixa a vida me levar” ou apagando incêndios, cumprindo uma agenda que não fomos nós que desenhamos. É possível planejar com leveza, deixando de lado uma autocobrança exagerada e se divertir no processo?

Dividida entre mais um café e a busca pela sensação de ver esse texto finalizado, escolho continuar.

 

Uma combinação de fatores influenciando nossa decisão.

 

É impossível explicar a procrastinação completamente e sistematicamente com fatores isolados. Sempre existe uma combinação deles agindo no nosso processo de tomada de decisões sobre o que fazer ou o que não fazer, e vamos considerar nossas emoções (mais do que você imagina) ao escolher onde investir tempo.

A pesquisa que citei no início traz alguns desses fatores e, em primeiro lugar, um dos motivos mais óbvios da procrastinação: a aversão à tarefa. Não gosto, não faço. E aqui damos de cara com nossa parte infantil e birrenta que pensa que a vida é só alegria e momentos de extrema satisfação. Burocracias, números, relatórios, supermercado, gavetas desarrumadas, costumam estar em listas de tarefas aversivas que ficam para depois.

O tempo é também um fator óbvio que influencia a procrastinação. Prazos apertados tem o poder de nos motivar loucamente e recompensas claras e óbvias também. Sim, nos motivamos por recompensas e, quanto mais perto ela estiver, mais acionamos a nossa capacidade de realização (talvez por isso meus planos a longo prazo nunca tenham dado certo).

 

Os incentivos podem nos motivar a agir.

 

Percebo isso todos os dias ao negociar a hora do banho com meu filho, de 7 anos, e me pergunto se é esse mesmo lado criança dentro de mim que continua buscando recompensa imediata, mesmo que seja somente um elogio.

Juntando os dois fatores que citei acima, uma das conclusões da pesquisa é que “A procrastinação ocorre quando os benefícios de evitar a aversão à tarefa superam os benefícios das recompensas tardias que a tarefa pode gerar.”

(Lê de novo).

Eu li assim:

 

A realização ocorre quando os benefícios futuros relacionados ao cumprimento de determinadas metas, superam a aversão à tarefa. 

 

Ou seja, às vezes você não gosta ou não está tão a fim de fazer algo, mesmo que seja algo prazeroso para você. Mas quando você tem em mente a motivação para dedicar seu tempo nessa tarefa, você ajusta o seu irracional na tomada de decisão, vai lá e faz. É você adulta no comando.

Isso vai exigir visão de futuro para que você entre no processo de realização e não seja arrastada pela procrastinação. Quando é o seu chefe que estabeleceu essa visão, basta cumprir o seu papel. Mas e quando o futuro é o seu? Quando o projeto é o seu? Quando a execução depende basicamente da sua visão e do seu comportamento?

Sim, mesmo com a vida louca e impermanente, mesmo sabendo que não temos controle do que vai acontecer amanhã, visualizar o futuro soma força na sua capacidade de realizar. E não basta visualizar uma única vez. Não basta escrever o propósito e deixar na gaveta. A vida segue. Damos de cara com acontecimentos inesperados. Mudamos de ideia. É preciso sustentar conscientemente a sua motivação, lembrar e relembrar do porque aquilo é importante para você. Dia após dia. Vai fazer enorme diferença na sua sensação de realização.

 

Nota confessional:

Não, eu não terminei esse texto no dia que o coloquei como meta. E tudo bem. Relaxa, mulher. Use o planejamento e as metas como seus aliados, não como inimigos.

Referência:

  1. Zhang S, Liu P, Feng T. To do it now or later: The cognitive mechanisms and neural substrates underlying procrastination.  2019 Jul (Fazer agora ou depois: os mecanismos cognitivos e substratos neurais por trás da procrastinação).

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz processos individuais e em grupos que despertam maior conhecimento sobre si mesmo, com diálogos sobre a mente, a percepção do corpo e do comportamento e que inclui o ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.