Se existe algo que sinto prazer é prestar atenção no que acontece no ambiente em que estou. Cores, sons, pessoas e suas expressões, sabores, aromas. Meu olhar procura detalhes. Cada estímulo poderia ser poesia, poderia ser a cena de um filme, poderia ser a página de um livro.

Gosto especialmente de observar como o corpo se expressa. Gosto de ver um casal à mesa de um restaurante e ficar imaginando há quanto tempo eles se conhecem, se já possuem intimidade, se dormem juntos todas as noites, quais são os motivos das desavenças entre eles, se eles se permitem viver o amor.

Eu gosto de ver as manifestações do amor.

Outro dia, num restaurante japonês, desses que você encontra orientais comendo na mesa ao lado e presume ser um bom sinal sobre a qualidade da comida, um casal se sentou à minha frente. Ele, nitidamente querendo agradar. Ela, visivelmente encantada. Demorou um tempo até que ele decidisse em qual cadeira se sentar. Foi estranho. Me fez pensar que ele era gago ou que nunca tinha levado uma moça para jantar. Fiquei com a sensação que eles não tinham esse costume. Ela sorria, sem graça, meio tímida, desengonçada e desconfortável no vestido arrumado, que poderia ter sido emprestado da prima mais velha. Sua feição não era exatamente bela, mas estava iluminada pelo carinho que recebia dele.

“Talvez seja o primeiro ou o segundo encontro”, pensei. Ela tinha na postura o ar da conquista. Diria que seu lado mais autoconfiante estava presente. Olhos nos olhos, movimentos delicados, suaves, que seduzem com naturalidade. De repente, um beijo cheio de desejo, ali mesmo, na mesa em que estavam sentados. E, depois do beijo, a demonstração discreta da alegria: o rosto se abaixa, a mão esconde o sorriso, os olhos se fecham e depois se abrem procurando o olhar do outro.

Ela me lembrou uma outra moça que sempre vejo na aula de dança de sexta a tarde, que acontece no lugar onde, no mesmo horário, sempre peço um pedaço de bolo e um capuccino. Ela não tem ritmo. Seu corpo parecia dançar uma música imaginária muito diferente da que tocava no auto falante. Sem sentido, sem padrão, totalmente descompassado. Mesmo assim, ao ver um rapaz dançando sozinho, se aproximou. Ele a recebeu com um sorriso, ajeitando o cabelo encaracolado e bagunçado, segurou a mão dela e os dois se divertiram, como se ali não houvesse mais ninguém.

Isso também me fez lembrar o meu pai que, independente do ritmo que esteja tocando, parece sempre dançar uma valsa. Mas, meu pai não tem a coragem que essas moças tinham. E nem eu. Nos preocupamos demais com o que os outros estão pensando. Não sabemos gozar a vida como as moças desengonçadas. Preferimos muitas vezes ficar sentados, observando.

Na minha “poesia” percebo que elas tem algo em comum: a coragem de ser exatamente quem são, independente da aprovação de quem estiver olhando.

Assim sigo aprendendo a me libertar dos padrões e do que eu imagino que esperam que eu seja ou faça. Sinto, na minha vida, que quando vivencio momentos assim, eles vem do amor. O amor que posso sentir por mim mesma, o amor pela vida, o amor pelo amor!

Dançaremos como se não tivesse ninguém olhando?

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.