Escolha uma Página

Confusa. Acordo e sinto aquele vazio no estômago que costuma anunciar a chegada do meu refluxo. Sinto medo dessa sensação. Nas últimas vezes que veio me vi no meio de tantos pensamentos negativos que, literalmente, paralisei. No meio da biblioteca, junto com meu filho, meu corpo era só vontade ir embora, chegar em casa depressa, me enfiar debaixo de um edredom quentinho e dormir o tempo que fosse preciso para tudo passar.

Acordar com essa sensação no estômago me deixa apreensiva. Eu conheço o que vem dela. Ela já esteve aqui tantas outras vezes e traz dias pouco produtivos, com humor sensível e instável, apatia e desprezo até mesmo um bolo de cenoura quentinho com cobertura de chocolate.

Estou confusa sobre o que devo fazer. Demoro para levantar da cama porque, antes mesmo de colocar o meu corpo de pé, quero entender o que fazer. Quando é que devo dar espaço para a emoção e pensamentos sombrios para ressignificar medo e memórias? E quando devo buscar refúgio naquilo que muda a minha frequência, tentar ficar bem, pensar positivo? Doenças crônicas podem influenciar a sensação de felicidade? Sim, estou na fase pré-menstrual.

“Ok, refluxo. Estou te vendo”.

O estômago eu sinto oco, o nó na garganta chega a influenciar os ouvidos trazendo pressão para dentro deles, e a parte final do esôfago até a minha garganta começam a queimar. Melhor evitar café, fritura, molho de tomate, cerveja e chocolate em excesso. Tem sido assim nos últimos meses. E é só minha a responsabilidade de fazer.

Ainda estou confusa, mas quero que seja diferente. A última vez que o refluxo veio me trouxe colapso. Decido que dessa vez não quero que seja assim. Descubro que, além de tomar as medidas alimentares e medicamentosas, talvez seja preciso aprender a lidar com a doença. E se fosse algo ainda mais grave?

Eu aceito. O refluxo existe. Ele me mostra os pensamentos mais perturbadores. Mas eu não sou o refluxo. Ele não me define.
Eu aceito. Esses pensamentos perturbadores fazem parte de mim agora. Mas eu não sou esses pensamentos. Eles não me formam.

Passo um dia mais quieta, mas não estou mais confusa. O que preciso fazer é seguir. Em paz com o refluxo que me acompanha em cada uma das atividades que me proponho a fazer neste dia.

No dia seguinte o refluxo ainda não desapareceu. Eu aceito essa condição momentânea do meu corpo e me responsabilizo pelo meu próprio cuidado para que o refluxo se manifeste cada vez menos até desaparecer.

A doença segue comigo, vamos juntos, em movimento, fazendo aquilo que me propus a fazer, em mais um dia perfeitamente comum: meditação, terapia, reunião, outra reunião, atendimento, evento… Até que, quando paro para sentir o corpo, não vejo o refluxo. Foi ele que desapareceu ou fui eu que deixei de perceber? Eu não sou o refluxo. Ele não me define.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.