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Na noite do último domingo eu dancei. Dancei como se fosse a última noite. Era Elba Ramalho no palco. Show para poucas pessoas no lugar que mais gosto de dançar aqui onde eu moro. A luz, o som, o calor, a alegria que vinha de dentro. Tinha uma atmosfera que fazia meu olho brilhar. Meu corpo era como amor em excitação.

Logo na primeira música, eu senti que meu desejo era brincar, soltar, me deixar levar. Não importava se o passo estava certo, se a roupa estava torta, se o cabelo estava despenteado. Eu queria bagunçar, rir com o outro, provocar alegria. Meu corpo era criança querendo se divertir.

Eu pulsava vida, aberta para a conexão com cada um que me convidava para a dança. De corpo inteiro me entreguei. Me reconhecia mulher, me sentia linda, meu corpo era como água querendo fluir.

E dancei, no ritmo do som da zabumba, olhando nos olhos de quem me conduzia, sorrindo enquanto me aventurava em cada rodopio, com minha própria permissão para que eu manifestasse a felicidade. Eu mereço. Nós merecemos.

Quando o corpo ovula é abundância que vibra por dentro e se expressa fora de nós. Tenho a sensação que os aspectos positivos da minha personalidade transbordam. Me sinto mais criativa, intuitiva, esperta, produtiva, mais disposta a ouvir e me conectar com o outro. Saio do mundo interior e me exponho, sem vergonha, ao mundo exterior.

Essa fase do ciclo menstrual, numa visão holística, pode ser comparada à lua cheia, que movimenta as águas e desperta a fluidez, a entrega, a adaptabilidade, a transparência. Sim, me sinto água enquanto danço e sinto, muito forte, a energia da feminilidade e da fertilidade a partir da vontade de conexão e intimidade com o outro.

Quando chego em casa me deito, fecho os olhos e sinto o sangue fluir, a respiração acalmar. Desejo que mais momentos como esses aconteçam e que eu esteja cada vez mais desperta para, de fato, perceber e não deixar passar nenhuma pequena gota de felicidade que brotar em mim.

Se não estamos atentas, como poderemos reconhecer estados de plenitude? É preciso desfrutar.

*Nesse dia eu me esqueci de pedir para alguém fazer uma foto de um dos meus rodopios. Mas encontrei essa no meu celular que, apesar de não me lembrar da data, imagino que eu também estivesse ovulando.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.