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Todo mês acontece igual. A preparação para amadurecer, receber e fecundar um óvulo, garantindo, ou não, a continuidade da espécie, provoca mudanças. São físicas, biológicas, hormonais, emocionais e, também, comportamentais. Todos os meses. Ao longo de cerca de 39 anos. Por mais de 400 ciclos. É assim que acontece. E já sabemos disso.

Ciclo é o espaço de tempo no qual acontece e se completa algum fenômeno com determinada regularidade. Tem começo, meio e fim. E começa tudo de novo. Ciclam as estações do ano, as fases da lua e o corpo da mulher.

Eu adoraria, mas nem sempre soube lidar com as consequências desse sobre e desce hormonal. Quando jovem demais, o corpo ainda aprendia a ciclar. O sangramento era irregular, as cólicas muito fortes. Adolescentes experimentam ciclos desconfortáveis nos primeiros anos menstruando. Quantas de nós conheceu alguém da escola que faltava à aula por conta de sintomas intensos?

Com o tempo, músculos, útero, ovários, se adaptam. Permanece o desafio de aprender a lidar com a emoção e o comportamento. As obrigações, demandas, sobrecargas, dezenas de tarefas e compromissos, influenciam nossa fisiologia. Quantas crises, questionamentos, carências, sentimento de solidão vamos vivenciar diante da sobrecarga? Ó vida adulta. Ó mundo cruel.

Um corpo, quando saudável no físico, mental, emocional e espiritual, não apresenta disfunções. O corpo esquecido, esse sim, grita por deixar de ser olhado. A menos que exista alguma desordem de origem orgânica, como mioma ou endometriose ou policistos, é para que seu ciclo seja como deve ser: fisiológico, natural, do jeito que é ser mulher.

Mas por que tantas vezes percebemos a menstruação como algo incômodo?

Mais de 40% das mulheres já desejaram menstruar menos vezes no ano ou até mesmo não menstruar nunca.

Que saco isso de todo mês sangrar, me sentir plena e irradiante numa semana e na outra me sentir completamente desinteressante e inútil? Quantos projetos já empaquei por conta dessa flutuação?

Sinto que estamos fazendo alguma coisa errada, meio que nadando contra a maré, remando contra o vento. Já remou contra o vento? Eu já. Cansa muito mais e o esforço é muito maior para sair do lugar.

Em algumas culturas a tensão pré-menstrual, por exemplo, não é vista como um mal a ser combatido. O que não significa que as alterações emocionais, decorrentes da queda de hormônios na fase pré menstrual, não existam. Apenas não são vistas como patológicas.

Por aqui, reconhecemos como síndrome. É patologia descrita na lista da classificação internacional de doenças. E algumas vezes de fato é. Três a 11% das mulheres experimentam sintomas exacerbados necessitando de intervenções mais específicas. No corpo que cuida de si, que se alimenta bem, que escuta os próprios pensamentos, que cuida das relações, que descansa, que se movimenta, que se socializa, a fase pré-menstrual é apenas a fase pré-menstrual.

Já tive a sensação de que o que eu não queria era lidar com o que surge. A raiva vinha por estar sentido a raiva. Prefiro negar que existe em mim agressividade, a tristeza, a baixa autoestima. Ô se existe. E aí, fica difícil ser perfeita quando hormônios flutuam, quando o trânsito é caótico, quando não existe segurança na rua, quando há julgamento de todos os lados, quando somos obrigadas a ser o que esperam de nós. Me deixa ser perfeita, pô.

Esse mês eu não tive TPM. Fiquei irritada e impaciente em alguns momentos, mas saquei que era pontual. E saquei também que o ambiente, as relações, a tranquilidade interna, a ampliação do olhar para esse momento, influenciaram a maneira que percebo cada uma das minhas emoções.

Estou preferindo a auto responsabilidade. Não há nada errado que precise ser negado. Reconheço, sim, que a reatividade e as atitudes mais impulsivas nessa fase do ciclo trazem consequências. Cabe a quem resolver esse “problema”? Nossas emoções mais simples não precisam ser interpretadas como patológicas. A forma com que reagimos a elas, talvez, sim.

Serão mais de 400 ciclos ao longo da vida de uma mulher. É melhor começarmos a aceitar, acolher, conhecer, perceber e se organizar de forma diferente a partir desta consciência.

 

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.