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Na última semana meu filho de 5 anos me mordeu na barriga. Mordeu forte. Ele estava com muita raiva porque eu não deixei que dormisse na casa dos primos.

Às vezes eu também sinto vontade de morder as pessoas. Ou de repente puxar os cabelos, enfiar o dedo no olho. Mas eu não posso, porque me ensinaram que eu devo controlar as minhas emoções e manifestar a raiva é coisa de gente descontrolada.

Controlar as emoções?

Ultimamente tenho pensado muito sobre jeitos de lidar, expressar e manifestar a emoção, especialmente a raiva. Dar espaço pro corpo fazer o que precisa fazer para liberar sentimento, sem invadir o espaço do outro, sem encostar no corpo do outro, blindando qualquer pessoa dessa manifestação, que é só de quem sente a raiva.

Ser gentil, educada, procurar as palavras certas, usar de métodos pra uma comunicação mais empática, oferecer um pedaço do chocolate, buscar água, responder o whatsapp o mais rápido possível, perguntar se estão precisando de alguma coisa, abaixar a tampa do vaso, levantar a tampa do vaso, mandar mensagem de parabéns no dia do aniversário, oferecer um café pra visita em casa.

Todo mundo espera um comportamento específico.

Eu ando tão cansada de regras de boa educação que me senti incomodada por não saber ensinar o meu filho a lidar com a emoção sem necessariamente reprimir. Eu mesma não sei fazer isso. Consigo contar nos dedos quantas vezes na vida eu deixei a raiva se manifestar. Se eu pudesse diria: “É isso aí filho, coloca essa raiva pra fora, grita mesmo, esperneia mesmo, não precisa esconder o que você está sentindo. Mas mantenha suas mãos e seus dentes longe do meu corpo porque não podemos sair por aí mordendo e nem arrancando o cabelo de ninguém.”

“Conseguimos controlar o comportamento, mas não o sentimento”.

Como é que faz pra ensinar a dar espaço pra raiva e pra frustração sem invadir o espaço do outro? Sério, na prática, como faz? Reconhecer que existe raiva já é um grande desafio, porque é um sentimento feio e, assim como a tristeza, queremos esconder. Precisamos estar felizes sempre. Tristes e com raiva, nunca. Ou pelo menos não devemos falar que estamos porque incomoda. Reconhecer que ela existe, fazer silêncio e meditar, funcionam muito, mas não combina com a raiva. Raiva combina com grito, descontrole, esperneios e boca amarga. Quantas vezes consegui fazer isso na vida depois de gente grande?

“Quando você controla o sentimento, começa a interferir no corpo e desencadeia comportamentos neuróticos.”

Teve uma manhã que, no espaço de um segundo, em forma de áudios no whatsapp, eu senti a raiva chegando. “Aqui está você, quero te ouvir, dona Raiva”. Eu gritei o mais alto que pude. Disse tudo que de fato se passava no meu pensamento, sem filtros, dei socos no voltante do carro, gritei mais um pouco, áudio atrás de áudio, meu comportamento demonstrava raiva.

Apesar da aparência, eu sentia que estava no controle. Tinha uma observadora dentro de mim mesma que sabia exatamente que era apenas um pouco de espaço para a emoção. Enquanto parte de mim gritava todos os palavrões que eu conhecia, outra parte pensava: “Puxa, que lindo! Estou manifestando a raiva. Veja como a respiração está forte, como o coração bate mais rápido e feito um tambor, como o rosto está quente e vermelho, percebe o leve formigamento no corpo por conta do sangue que circula mais rápido, os músculos tensos e rígidos. Deixa vir.”

Eu deixei, durou menos que 20 minutos, foi libertador e um exercício de aceitação da minha humanidade.

A raiva, assim como o amor, deixa marcas na nossa alma. No mesmo dia que ele me mordeu, durante o banho, meu filho perguntou o que era a marca roxeada perto do meu umbigo e sentiu vergonha. No dia seguinte desenhou uma mulher com um buraco na barriga e do outro lado um menino monstro mau correndo atrás dela. Estamos marcados com esse episódio e não paro de refletir sobre como aprender, para depois ensinar, um jeito civilizado e não reprimido de manifestar a raiva.

Cris Ferrari

Investigando e percebendo corpo, ciclo, mente e comportamento. Mestre em fisioterapia, conduz grupos de práticas corporais com diálogos sobre a percepção de corpo e ciclo menstrual. Acupunturista, Personal and professional coach, praticante de meditação budista, mãe do Lucas e doida pelo pôr do sol.